Na semana em que foi atribuído aqui no blog o prémio de Jogo do Ano 2006 a
Imperial, resolvemos tentar chegar a algumas conclusões acerca do trabalho do seu autor, um economista de Hamburgo, Alemanha que, até hoje, conta unicamente com dois jogos publicados -
Antike e Imperial. Prevê-se, e aguarda-se com muita ansiedade, a publicação do seu terceiro título (
Civitas Hamburgum), provavelmente, lá para Outubro próximo, a tempo de entrar na corrida de Essen. Assim esperamos que aconteça.
Mas a pergunta que nos fizemos foi - "haverá um estilo
Mac Gerdts?" Não é líquido que se possa fazer uma afirmação pronta, tirar uma qualquer conclusão, se considerarmos que o autor tem somente dois títulos publicados. Não é suficiente para analisar um estilo, direi eu. Ainda assim, podemos afirmar que existem elementos comuns aos dois jogos em questão.
Quando compramos (ou jogamos) um jogo de Mac Gerdts sabemos que vamos jogar um jogo pesado, para gamers à séria, que gostam de passar, pelo menos, um par de horas de volta de um tabuleiro. E esse tabuleiro tem (pelo menos e até agora, teve) um mecanismo chamado rondel provavelmente, um dos melhores mecanismos conhecidos.
A forma como os jogadores executam as acções é baseada nesse rondel. Este mecanismo explica as limitações e também extrapolações da forma de jogar de cada um dos intervenientes. Ou seja, se por um lado nos limita as acções, por outro, alcançamos informação pertinente e muito mais que a habitual em outros mecanismos de execução, encontrados em outros jogos, podendo com isso, mais facilmente, encontrar uma estratégia definida. O limite das acções dos adversários corresponde a uma maior dinâmica estratégica em detrimento da táctica usual em muitos - mesmo muitos - eurogames tradicionais. Nestes termos, lembra-me um pouco os jogos de outro autor (Martin Wallace) em que, também aqui, se consegue visualizar as possíveis acções dos adversários com outro objectivo para lá do controlo. Vigia-se para avançar no nosso jogo, da nossa forma, e não como limitação real, absoluta, numa espécie de dependência das acções dos adversários.
Essa dependência das acções dos adversários existe na mesma, mas o rondel estratifica-a em mecanismos parciais - Limite Próprio, Limite Adversário e Coerência das Acções. Se o limite dos adversários também é o nosso próprio limite - quando somos adversários - a coerência das acções surge pela limitação da quantidade possível e também pelo agrupamento/sequência em que estão inseridas no rondel.
Outra conclusão a que podemos chegar é que Mac Gerdts não cria jogos tipicamente europeus. Não se afasta do confronto directo entre jogadores como forma de alcançar os objectivos pretendidos. Aliás, é a guerra um dos factores determinantes em cada um dos seus jogos. Apesar de ter uma resolução algo minimalista, completamente desprovida de sorte ou aleatoriedade, a guerra, o combate, está presente e serve para se conseguir vitórias, em alguns casos, essenciais (Antike), para se alcançar o cheque-mate.
Tematicamente, os jogos de Mac Gerdts são também muito bem adaptados. Se, por um lado, vemos temas completamente diferentes em cada um dos seus jogos - Antike num tema civilizacional da antiguidade e Imperial num estilo mais especulação/economia em que o dinheiro é que conta para crescer - por outro, reconheçamos que, em ambos os casos, os temas estão muito bem associados às regras do jogo e, no caso de Imperial, apesar da origem poder ser um pouco controversa e até, de alguma forma, falaciosa (especuladores internacionais que trabalham na sombra e que controlam os destinos de uma nação!), isso é bem evidente na forma como os jogadores desenvolvem o seu sucesso. Nomeadamente, as questões que ligam o dinheiro das nações com o dinheiro dos jogadores.
Nesta reduzida análise tentei encontrar elementos de contacto na obra (curta) do autor. Muitos mais haverá que se poderiam acrescentar. O mais importante é que Mac Gerdts é, claramente, um dos mais criativos e interessantes autores de boardgames da actualidade e, perdoem-me os mais puristas, tem um elevado grau "Wallaciano" nas suas criações. Não em questões de equilíbrio e "polimento" dos seus jogos, aí acho Gerdts muito mais acertado mas, sobretudo, nas questões que se prendem com criatividade de mecanismos, utilização do tema ao jogo, interacção entre jogadores, exploração de factores estratégicos muito mais que tácticos e peso de jogo. Que conte muitos!