O SpielPortugal teve a distinta lata de, aquando da sua passagem pela "terrinha" durante a LeiriaCon, pedir à Bel, colega obatijoleira, para escrever um post sobre essa mesma experiência. O relato, como sempre, genial e com um ponto de vista bem distinto, podem ler mais abaixo. No resto, fica um obrigado do spielportugal. A melhor notícia deste encontro é que deixámos de ser nicks e jogos e passámos a ser caras, nomes e famílias. Felizmente! Um beijo nosso para vocês, Bel e Tânia.

São tantos os possíveis “lides” que fica difícil começar o post-matéria-impressões sobre o LeiriaCon 2008. Bom, antes de mais nada, é bom explicar rapidamente o termo. Para quem não está familiarizado, lide – para os brasileiros pelo menos – ou lead – é simplesmente o primeiro parágrafo de uma matéria. Ou seja, onde o jornalista explica quem fez o quê, quando, onde, como e por quê.
Mas voltando…
Poderia começar escrevendo maravilhas sobre o caloroso acolhimento dos portugueses; ou pela mesa farta e repleta de iguarias deliciosas que só se come em Portugal; pelo Mac Gerdts e a sua relação obsessiva com galão pós-refeições!; mas também poderia citar alguns dos mais de 200 jogos que passaram pelas mesas dos salões do Instituto Português da Juventude, no sábado, dia 26 de janeiro, e que reuniu cerca de 90 pessoas com um único propósito: jogar!
O dia, friozinho – pelo menos para uma brasileira-carioca que costumava tremer e se abarrotar de casacos quando lá fazia 14 ºC –, foi perfeito para a jogatana que começou às 10h terminou pouco depois de meia-noite.
Pois é, LeiriaCon nos proporcionou diversão 24 horas por dia (não, dormi. Mas, sim, sonhava com os jogos e com as comidas!) e ótimas descobertas: jogos diferentes dos habituais, pessoas adoráveis, gastronomia de excelente qualidade e farta (isso nós herdamos!) e um país que se encaixa feito luva no mapa do estado do Rio de Janeiro, mas com uma diversidade e uma beleza ímpares. Sim, estou repetitiva, né? Mas fazer o que…
Enfim, antes que comece a fazer uma ode à Portugal e suas riquezas, vou começar pelo início. Pelo meu início, claro. Espero que não dê sono. Tentarei ser breve.
Quando Paulo ligou nos convidando para irmos à LeiriaCon, eu e Tânia aceitamos imediatamente. Fizemos as contas e deu para encaixar dois dias em Lisboa antes das obrigações com os jogos. Na capital, encontramos com a dupla do “jogos de tabuleiro”, Hugo e Zorg. Ou seja, começamos com chave de ouro. Lá, os dois nos apresentaram ao La Città, um city building bem simpático.
Quem ganhou? Tânia, a lendária brasileira que não perdoa (quase) ninguém nos tabuleiros – mas que não estava nos seus melhores dias em Leiria (distraiu-se com truques dos adversários tugas ao fazê-la comer toneladas de comida e depois passear).
No dia seguinte, nos encontramos no aeroporto com Soledade que esperava ansiosamente o game designer Mac Gerdts, figura (e uma figura) ilustre dos jogos de tabuleiro e idealizador de um dos jogos mais queridos da turma do Spiel Portugal, o Imperial. Ele chegou com uma grande “pasta” de papelão.
A viagem começou tensa, afinal tínhamos uma celebridade no carro e deveríamos falar em inglês todo o tempo. Mas o Mac logo se mostrou “gente como a gente”, deixando a viagem de cerca de 150 quilômetros até Leiria tranqüila e agradável. Ao longo do caminho foi falando um pouco sobre… adivinhe… jogos!, claro. “Não jogo muito”, revelou Mac no meio da viagem. Uau! Para um gamedesigner, não jogar pode ser complicado… Mac comentou também que seus jogos demoram, e muito, para sair do forno e ele, finalmente, decidir publicar. Imperial, por exemplo, foi elaborado ainda nos anos 80(!!!) e só foi lançado em 2006. Hamburgum também foi maturado por muitos anos, mas esse começou já nos anos 90, e foi lançado no ano passado.
Bom, já em Leiria, depositamos o homem no hotel e fomos nos arrumar para o jantar. Pouco depois, lá estava Mac nos esperando na porta do hotel para jantarmos com todos do Spiel Portugal e suas respectivas mulheres/namoradas. Preciso dizer que foi uma orgia gastronômica? Preciso dizer que foi super divertido? Acho que não. A foto com os couverts (sim, isso nem é a refeição principal) já diz tudo, né?
Mas o melhor do jantar ficou para o final. Depois de todos para lá de satisfeitos, Soledade pergunta quem quer café. Alguns aceitam outros recusam. Mac pede um galáo. “Você quer dizer um pingado: café com um pouco de leite, certo, Mac?”, pergunta Soledade. “Não, eu quero um galáo!”, diz Mac. “Mas o galão é um copo grande de leite com café… É isso mesmo? Tem certeza?” “Isso. Eu quero um galáo”, disse enfático, para não haver dúvidas, como um don Lázaro pedindo por meláo, pós-derrame. A mesa, em choque, arregalou os olhos vendo o homem tomar avidamente o copo.
Incrível.
E, assim, depois de TODAS as refeições, Mac Gerdts tomava o seu galáozinho. Claro que virou a piada da temporada.

Mas, desde o aeroporto, Soledade não tirava da cabeça o que tinha visto. Quando Mac saiu daquela porta automática que separa viajantes dos mortais que simplesmente esperam, Paulo mirou os olhos direto na grande pasta de papelão. O que será que tem ali, nos perguntamos? E perguntamos ao Mac, claro. “Não conto”, disse ele. Mistério que só foi desvendado no dia seguinte, quando fomos juntos para o grande evento.
…
No dia seguinte, começava a jogatina. E, assim que chegamos, Mac queria falar com todos. Agradeceu ao convite, claro, avisou que estava com o protótipo do Imperial, que dura em média 8 horas(!), apresentou um protótipo de um novo jogo – novo nem tanto, o cara começou a desenvolver a idéia ainda em meados dos anos 90! e, sim, trouxe um presente. Um mimo. O gamedesigner alemão fez uma expansão para seu último jogo, Hamburgum, com um belo tabuleiro de Lisboa (muito mais bonito que o original!) e fez uma ou outra modificação nas regras. Na mesma noite, eu Tânia, Costa, Nuno e Soledade jogamos e adoramos!
Depois dos anúncios de Mac, ele jogou com mais alguns – inclusive o Paulo – seu novo jogo. “muito bom, muito giro, mas um pouco longo”, comentou Paulo depois da partida que levou umas 3 horas. Enquanto isso, eu, Nuno, Tânia e Luís nos arriscávamos no difícil mundo de Brass, outro joguinho bastante popular entre o povo do Spiel Portugal. A partida foi um tanto quanto caótica – com pelo menos duas grandes interrupções, uma delas pra comer, claro!!!! -
Na volta do almoço, ainda paramos o Brass para jogarmos Wings of War, joguinho criado pelo italiano Andrea Angiolino, que estava lá. A batalha entre aliados e nazistas rendeu o recorde mundial de jogadores. Éramos, ao todo, 47. Resultado final: massacre das tropas de Hitler sobre os aliados!
Depois, até que conseguimos terminar o Brass! Quem ganhou? Nuno, claro, não explicou bem o suficiente só pra Tânia não ganhar. Heheheh.

O Protótipo

Wings of War com A. Angiolino - 47 jogadores!
Brass
Depois do Brass, fomos para a mesa do Imperial! Nossa primeira experiência com o jogo que achávamos ser bélico da cabeça aos pés e muito longo. É, tínhamos muito preconceito. Mas estávamos lá justamente para tirar a prova. E o próprio Mac Gerdts juntou-se ao grupo. Éramos, então, seis. Início tenso, com o astro na mesa, aos poucos, bem aos poucos, os jogadores foram relaxando. Quer dizer, alguns. Mas, enfim, a partida foi emocionante. Quem ganhou? Mac Gerdts, claro, ou vocês achavam que a Tânia ia fazer essa desfeita?
Depois da experiência aquilo que pensávamos sobre o joguinho foi às favas. É realmente muito giro e não necessariamente bélico todo o tempo. Exige timming do jogador para saber quando atacar, quando comprar ações e quando ganhar dinheiro. Muito bom, muito bom.
Exaustos fomos todos para a casa do Paulo. Terminamos a noite com a versão lisboeta de Hamburgum. Fechamos com chave de ouro. Ótimo jogo, bem mais simples do que Imperial, mas nem por isso menos complexo. Quem ganhou? Costa. O lanterninha deu uma bela virada na ronda final.
O day after jogatina foi para relaxar. Passeamos por Leiria, conhecemos alguns belos e simpáticos cantinhos da cidade e depois pegamos o carro para conhecermos o entorno. Eu já conhecia Batalha e Alcobaça, mas não conhecia Nazaré, uma cidade do litoral português muito bonita, com o Oceano Atlântico banhando a praia de areia (!) grossa e onde as mulheres, precavidas, usam uma saia com sete panos. Fomos lá para Mac ver o mar. Seguem algumas fotos impagáveis do homem na praia. O homem parecia uma criança!


Na segunda, Paulo ainda teve forças – e a delicadeza – de nos levar até o aeroporto de Lisboa. Nunca vamos esquecer a viagem, a gentileza, o senso de humor (sentimos falta disso aqui em Paris) muito parecido com o nosso e os jogos, claro!
Obrigada.
Beijos
Bel
PS: uma versão uncut está disponível no Oba, Tijolo!