Jogo de tabuleiro sem tabuleiro parece que não é bem a mesma coisa! Talvez porque no meu tempo de miúdo todos os jogos de tabuleiro tinham efectivamente tabuleiro. E ainda que este “todos” sejam só dois ou três títulos, a verdade é que esse meu universo de então foi suficiente para deixar a semente que agora germina, muito por culpa, claro, dos pedaços de tabuleiro unidos por uma espécie de gaze amarelada pelo uso.
Só o acto de desdobrar um tabuleiro é já algo de mágico. A mesa parece que ganha vida e à falta de quadros nas paredes quero achar uma obra de arte na mesa.
Da arte do tabuleiro resulta a segunda impressão que tenho dum jogo, depois daquela que se abre com a caixa. Acredito que haverá até quem adquira determinado jogo mais pelo tabuleiro do que pelo jogo em si, ou, no limite, mesmo só pelo tabuleiro!
O meu filho de seis anos mexe já nos jogos, mas quando se trata de abrir e fechar tabuleiros sou eu que intervenho. É a maior fragilidade dos ditos. Embora os riscos maiores que estes correm sejam o de levarem um banho de cerveja ou de licor Beirão num movimento de braço incauto…
Naquele pedaço de cartão impresso há todo um mundo para descobrir. De repente sinto-me viajar para outros espaços, para outros tempos: a América dos comboios, a Europa dos impérios, a Roma dos coliseus, as rotas do comércio, as ilhas imaginárias…
Cada vez que estendo um tabuleiro inicio uma nova história que aquela particular experiência de jogo vai contar.
É agora altura de adornar a coisa. Saltam da caixa maços de cartas, meia dúzia de cartões, cubos de madeira, mais cubos de madeira, peões, moedas e notas…
Durante uma hora, uma hora e meia, aquele vai ser o centro da nossa atenção. Mesmo visto ao contrário, ou de lado, o mundo que ali se desenha é sempre outro e há nele o mistério do que é novo e o desafio de cada jogada que se adivinha.
A caixa, a tal que sempre me fascina, sai da ribalta e é colocada literalmente de lado ou, escasseando o espaço na mesa, relegada para o chão.
O chão que acolhe as nossas brincadeiras quando crianças, dificilmente serve hoje para estender um tabuleiro. Este pede uma mesa.
A mesa é a amizade maior do tabuleiro, mas desconfio que mantêm uma relação com altos e baixos, pelo menos a ver pelo que se passa lá em casa! Há ocasiões em que a mesa é grande demais, outras em que é pequena. Talvez o problema nem seja das mesas nem dos tabuleiros, mas sim do número de jogadores!
Mesa pensada para comensais nem sempre responde à idiossincrasia dos “gamers” e em raras oportunidades convém ao tamanho e organização dos tabuleiros.
Talvez por isso também, alguns jogos surjam em proposta de puro “tile placement” ou com pequenos tabuleiros individuais, quais ilhas idealmente dispersadas na oceânica mesa. São soluções engenhosas, que têm o seu mérito. E que terão evitado que, num ataque de desespero, algumas mesas tenham sido serradas a meio…
Alguns tabuleiros respondem também a este desafio desenhando-se simetricamente em relação aos seus quatro lados. Os que não o fazem têm sempre um ou dois voluntários, jogadores mais experimentados ou tão-somente simpáticos e atenciosos anfitriões, que aceitam vê-lo invertido.
Poderia fazer, far-se-ão por certo, muitas efabulações sobre os diferentes tipos de tabuleiro. Poderia dividi-los num leque de categorias surpreendente, pintá-los de mil adjectivos, dobrá-los em infindáveis apreciações. Fico-me, em nota final, com aquela classificação que mais mexe comigo: a divisão entre tabuleiros, ou soluções de tabuleiro, que nos obrigam a levantar o rabo das cadeiras e os que permitem que permaneçamos sentadinhos no nosso tão estratégico quanto acolhedor canto toda a jogatina!


6 comentário(s):
Bom malha Rôla... (tenho que limpar as lágrimas).
Grande paixão essa. Também estou um pouco de acordo contigo, se bem que um belo jogo de cartas também não vai nada mal.
Mas o certo é que um tabuleiro dá maior "dimensão" ao jogo. Há um sitio para mexer coisinhas, e isso é sempre um fascínio.
Abraço
Adorei a crônica, e sou daqueles que adoram ver um bonito tabuleiro armado a mesa...
Abraços...
O coração do jogador estará sempre ligado ao tabuleiro, é verdade. Acertaste na mouche, Rôla. E para quando essa ode à mesa, hum? A mesa que acolhe os tabuleiros, suporta as bases para copos, exige - ou não - os braços de fora.
Tabuleiros, tabuleiros, lembro-me de um, muito especial. O Risco das 300 peças de plástico, aquele que eu comprei de olhinho a brilhar quando tinha uns 14/15 anos. Grande tabuleiro, esse.
Por agora não consigo decidir-me por somente um. Apelando às novidades de Essen, concerteza que o tabuleiro do Maria é o vencedor. Tem alguns competidores a tentarem intrometer-se mas, vencedor, vencedor, é o do Maria!
Belíssima crónica Rôla. Muito bonito.
Este homem não é um engenheiro... é um Senhor Poeta!
Bonita prosa a tua e admito partilhar contigo essa paixão por tabuleiros bonitos. Há muitos que me fascinam, pelos mais variados motivos e gostaria de destacar alguns:
GIANTS, ENDEAVOR, THURN UND TAXIS, JAMAICA, PILLARS OF THE EARTH, VALDORA, EL CAPITÁN, COLOSSEUM, TALES OF THE ARABIAN NIGHTS, VASCO DA GAMA, o protótipo do Vital do VINICOLA...
Parabéns Rôla :)
Engraçado,a propósito da poesia dos tabuleiros, dou-me conta que o jogo mais poético que conheço é com cartas e coelhinhos. Mas cada uma das cartas daria um tabuleiro!
O fascinio de que falam todos vocês é real, é essa magia que começa na caixa e acaba nos cubinhos que vale, mas são as pessoas à volta da mesa que fazem toda a diferença.
Bem hajam!
Partilho dessa paixão pela "poesia inusitada" de um tabuleiro de jogo...
Muito bom texto.
Adoro aquele lento abrir de um tabuleiro... é como um eterno desembrulhar de uma prenda...
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