22/11/2010

35€

Com o aumento de jogos cá em casa, a uma velocidade consentânea com a aceitação progressiva por parte da minha mulher dessa realidade e com o esforço de contenção que me tenho imposto e que avivo após os cada vez mais repetidos rebates dos nossos economistas, vejo-me na necessidade de repensar o arrumo das caixinhas.
Comprar um móvel novo não parece grande ideia, quer pelo que atrás ficou dito, quer porque, mesmo a preços Ikea, o que irei gastar daria para pelo menos mais dois joguitos!
A propósito, devo confessar que começa a ser muito usual o meu cérebro fazer contas em jogos e não já em escudos ou euros. O montante de referência é 35€. Podia ser o “Wallace”, que, portes incluídos, está cotado aí pelos 50€, mas 35€ é, convenhamos, o valor mais corrente e não tão penalizante à primeira vista, tipo aquele efeito dos 19,99€ que faz toda a diferença para 20€!
Há dias dei-me conta de que, se conseguir um almocito grátis (sim, há almoços grátis) de quando em quando ou passar (expressão que a minha avó usava com toda a propriedade) apenas com uma peça de fruta e uma barrita de cereais uma ou outra hora de almoço, conseguirei poupar os 35€ ao fim de 5 dessas ocasiões. Isto quer dizer que ando a almoçar por cerca de 20 cêntimos de jogo de tabuleiro e que, a concretizar-se a cogitada aplicação das poupanças, estarei a fazer ouvidos de mercador aos conselhos dos tais economistas.
Mas este raciocínio monetário não tem limites.
Custa muito ter de dar dois jogos de tabuleiro por uma consulta no pediatra, mesmo que a razão recorde tratar-se dos meus filhos! E como é penoso gastar 3,2 jogos de tabuleiro por mês em água e luz e 3,4 em aquecimento…
Na hora de deitar contas à vida na perspectiva duma viagem de fim-de-ano assusta perceber que a loucura nunca ficaria por menos de 23 jogos de tabuleiro, 25 ou 26, no mínimo, se o destino for a Alemanha!
O mais perigoso é estar-se a passar com esta “moeda” o que ocorreu com o euro. Tal como aconteceu com a bica ou o papo-seco, de repente despendemos num jogo o dobro do que racionalmente estaríamos dispostos a dar antes da introdução desta nova unidade monetária, isto é, antes de nos familiarizarmos tanto com a ideia de mais um joguito que perdemos o tino ao real custo do mesmo (os tais 5 almoços ou metade da consulta do pediatra – que é mais ou menos até àquela parte do “então o que é que o menino tem?”).
Há uns meses atrás, no regresso dumas mini férias “cá dentro”, apanhámos uma multa de trânsito que nos deixou abananados. Enquanto eu fazia contas em jogos de tabuleiro, a minha mulher, que vinha a conduzir e não teve culpa nenhuma do sucedido, fez contas em tapetes novos e decidiu deitar mãos à obra, mais ou menos como eu e os almoços. Serão após serão o tapete lá foi crescendo e hoje, para além do esperado aforro, teve o condão de nos devolver à grandeza das nossas competências, que parecem adormecidas desde os trabalhos oficinais da secundária, recordando-nos que não temos que comprar tudo, que há muita coisa que podemos fazer para evitar o continuado consumo desabrido que agora pagaremos com língua de pau.
Após esta frase de reconciliação com os atrás referidos economistas, devo acrescentar que o mesmo tapete é um extraordinário inibidor de velocidade na estrada. Para a minha rainha porque, apesar do orgulho na sua obra, não quer passar mais serões a tricotar, e para mim que, numa repetição do azar, não me livraria de um longo jejum de jogos de tabuleiro!
Para aplacar o meu sentimento de culpa a seguir a cada encomenda na Planeton, dou comigo a pensar nos gastos que os meus amigos têm com as suas pancadas. O meu cunhado joga golfe, a coisa não lhe deve ficar por menos de 2 ou 3 jogos de tabuleiro por mês; um outro amigo não perde um jogo em Alvalade, 1 jogo de tabuleiro por mês e muitas desilusões; uma colega tem a tara dos sapatos, também vêm em caixinhas mas custam bem mais do que um jogo, têm de ser comprados aos pares e duram bem menos!
A bem da nação, os passatempos deles deixam grande parte das divisas cá no país. Já os jogos levam-nas para fora. Outra mais-valia dos hobbies dos meus amigos é que não têm as caixinhas sempre a lembrar a tal culpa: o golfe já foi, o futebol é mesmo para esquecer e os sapatos… os sapatos são um bem de primeira necessidade.
No meu prato da balança pesa positivamente o facto de amortizar o investimento cada vez que a caixa vai à mesa: o Agricola está nos 10 euros, o Puerto Rico já só custa dois euros e 30 cêntimos por sessão, os dados do Pikomino já se lançam de borla…
Haveria ainda aqui lugar a uma série de considerações sobre o custo sopesado de um jogo de tabuleiro. Assim à maneira de quem compra fruta e a acha mais ou menos cara em função da peça que resolveu apreçar na sua mão. De como se considera barato ou caro em função da quantidade de tralha que o acompanha, da qualidade desses componentes ou, em primeira e última análise, da sua qualidade intrínseca, ou seja, expondo a ideia de forma mais segura, do quanto dele gostamos ou não.
E faria também sentido falar dos custos extra, desde os portes até às cervejas e ao queijo!
Mas não convém que um texto que fala do preço se alongue mais do que qualquer outro que nos apresente a caixa, aborde o tabuleiro, destaque os componentes ou aflore a temática.
Em tempo de crise, que também ao mundo dos jogos afectará de uma forma ou de outra, é bom continuar a cuidar que a crise maior por estas bandas ainda é a de tempo, ou de falta dele, melhor terminando.

5 comentário(s):

haroldun disse...

Olha: LOL + LOL e + LOL. Este é provavelmente o melhor artigo que já aqui li.
E agora pões-me a pensar na quantidade de jogos que tenho e que ainda não 'amortizei'.
E olha que não vou deixar de dizer ao teu encantador filho (lembrava-se de mim e tudo ... espero que or boas razões), na próxima vez que o vir, que uma consulta dele no pediatra custa, para pena do seu pai, 2 jogos ;) LOL
Belíssimo artigo caro Rola.

p.s. acho que agora vendem gameboxes a metade de um Brass ;)

soledade disse...

Lá vem o invejoso das gameboxes...

Muito boa a prosa Rôla. Estamos em sintonia e m relação a preços: se dividires pelo número de vezes que jogas, fica de borla. Pena é não começar a dar dinheiro pelos excessos.

Então e quando é que começas a fazer os teus próprios jogos copiando o tapete da tua rainha? Bem sei que os jogos são mais para cachecóis de Panelope, fazer de dia para desfazer de noite mas, com muita perseverança, eles acabam por sair feitos. E aí poupas nos portes. Ao menos isso!

A barreira dos 35 euros só é ultrapassada hoje em dia quando me lembro dos preços do antigamente. Repara que não havia jogos em Portugal e, os que havia, vendiam-se nas grandes superfícies a 6 ou 7 contos. Se recuares esses 15 anos e meteres um aumentozito anual (como em tudo) o normal seriam esses jogos custarem (valerem), pelo menos 50 euros. Nada de escandaloso para um país em saúde e uma indústria de autor mas, a necessidade provocada pela concorrência fez jogos acessíveis, muito maus, alguns deles, e produzidos com tintas de chumbo acetona a céu aberto. São os custos da indústria que era rentável porque cara e inacessível. Agora, pagas a proliferação (não em preço mas em qualidade) e ninguém te garante saúde.

Tiago Duarte disse...

... como eu percebo a parte do móvel novo!

... e a parte de contas em jogos de tabuleiro; 70 Km por dia de mota; 350 Km por semana; se for a cerca de 100 Km/h média de 3.5 l/100; se for a cerca de 120 Km/h média de 4 l/100; ou seja, se andar a 100 Km/h são menos 1,75 l/semana; ou seja, cerca de 7 l/mês; ao custo da gasolina são pelo menos 10 EUR que poupo... e isso dá para ajudar a comprar mais um jogo!

... o problema são os móveis!

Costa disse...

LOol! Também eu já dei por mim afazer essas contas. A transformar euros em jogos. Mas ao contrário de ti a minha taxa de câmbio é de 30, vá-se lá saber porquê...

Há um ano e meio fui comprar um móvel para os jogos (não fui ao Ikea porque é longe e se contarmos as despesas todas dá para 1 jogo e meio) e prometi a mim próprio que o pequeno montinho de jogos que se amontoava à esquerda do móvel depois deste cheio não poderia aumentar. Hoje olho para o móvel e vejo com horror que para além de estar com uma lotação bem acima do que deveria, já são muitos os montinhos de jogos que se amontoam à sua esquerda... e direita... e à frente...

Sou da firme opinião que comprar um móvel é um erro crasso. É o primeiro passo para se perder a noção da realidade, que os referidos economistas, de que o Rôla fala, tanto falam.

Para mim, o grande problema é mesmo comprar um móvel e não o modo como arrumamos tudo. Comprar o móvel É O ERRO. É subliminarmente permitir-mo-nos a possibilidade de adquirir mais jogos. E se o móvel fôr grande e sobrar espaço vazio... aí é o descalabro... garanto-vos!

Grande malha rôla :)

Unknown disse...

Muito boa alegoria !

A minha moeda foi durante anos a imperial: "Ora bem, 500 paus... ui, isso dá para duas imperiais na Discoteca... ou 7 no Tasco..."

A moeda funcionava mal ! Pois se por um lado, me impedia de gastar dinheiro por comparação, por outro e quando o produto a adquirir era a própria moeda (e por ausência de comparação ou embriaguez) de alguma forma os constrangimentos desapareciam ou até se subvertiam...
"Ora bem tenho 500 paus, isso dá para quantas imperiais?"


Com os jogos, igual...

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