Gil D'Orey, sportinguista, pai, designer. Desiludido com as vicissitudes das lógicas de mercado resolveu correr por conta própria e seguir em busca da realização das "utopias de miúdo". No panorama "minimalista" dos jogos de tabuleiro em Portugal, surge já como exemplo e referência na criação, produção e desenvolvimento de jogos em português, para portugueses, sobre Portugal... O Spiel quis saber mais...
# ENTREVISTA #
- De que forma a sua experiência profissional na área do design e marketing e formação académica se relacionam com a criação e desenvolvimento dos seu jogos?
De uma forma total! Isto é, para criar e produzir um jogo de tabuleiro não chega ter uma boa ideia - se bem que isso é fundamental. A minha formação em design e publicidade ajudam-me a passar da parte puramente conceptual para a parte prática. Que visual o jogo vai ter, como produzir os vários componentes do jogo, como comunicar a ideia do jogo, etc, etc. Quando penso na ideia de um jogo é de uma forma total, da criação até à produção. Sem dúvida que a minha formação académica, mas acima de tudo a profissional marca muito a forma de criar os jogos.
- Como funciona o projecto criativo que está na base da criação de um jogo de tabuleiro?
Um projecto criativo começa sempre pela essência do jogo - que ideia tenho para um jogo? E para isso é preciso estudar. Depois de detectado o assunto que pretendo reflectir num jogo, começa um processo de pesquisa. Ler, ler e ler. Falar com pessoas entendidas no assunto. Visitar cuidadosamente os locais que vão ser objecto do nosso jogo. Resumindo, a fase 1 será recolher informação. Depois passamos à fase 2 - criar o conceito do jogo. Que história vou contar no jogo? Que tipo de jogo quero criar, cartas, tabuleiro? Será um jogo para muitas ou poucas pessoas? É um jogo cooperativo ou competitivo? etc... E facilmente entramos na fase 3 - a criação das regras. Talvez seja a parte mais complexa e demorada. Dar ao nosso conceito uma dimensão prática. Temos que criar as regras e depois testá-las até à exaustão. É uma parte crítica, pois existe uma tendência de acharmos que criamos o melhor jogo do mundo e que faz tudo sentido. Mas nesta fase temos que ser humildes e dar o jogo a jogar para ouvirmos com muita atenção o que as pessoas têm a dizer. E depois disso será a finalização - o visual, o aspecto final do jogo. Como vai ser produzido e comercializado.
- Como surgiu o gosto pelos jogos de tabuleiro?
Nisto sou pouco original. Desde pequeno, em casa dos meus Avós, haviam sempre jogo de tabuleiros que me fascinavam. E desde essa altura, quando abria uma caixa, intrigava-me uma coisa - como funciona este jogo? Tinha sempre imensa curiosidade sobre as regras do jogo e de como elas funcionavam.
- O Jogo Almeida foi distinguido num certame internacional (Concours International de Boulogne-Billancourt - Paris), como é que surgiu esse projecto ? Existe alguma expectativa de comercialização do mesmo?
O jogo ALMEIDA foi talvez o gatilho que me lançou neste tipo de projectos. Depois de muito jogos inventados para os irmãos e outros apenas imaginados, com Almeida resolvi mesmo assumir o desafio. Fazer mesmo um jogo. Criá-lo e pensar na sua produção. Tudo começou numa visita à fascinante Vila de Almeida. Quando a visitei acorreu-me a ideia de um jogo e quando procurei no posto de Turismo, alguma coisa de interessante, não havia nada para comprar. Foi nessa altura que decidi criar o jogo ALMEIDA. Achei que um jogo de tabuleiro sobre ALMEIDA era um produto ideal para divulgar a vila. Foi muito bem recebido pelas Câmara mas os fracos recursos financeiros impediram-nos de publicar o jogo. Mas não perdi a esperança de o fazer até porque o jogo se portou bem no concurso em Paris. Em 147 concorrentes a nível Mundial ficou entre os 15 primeiros. É um jogo simples, mas muito divertido.
O projecto de OITAVOS surgiu de uma forma similar ao de ALMEIDA. Havia necessidade de criar algo diferente sobre o forte de S. Jorge de Oitavos em Cascais que estava a ser remodelado. A minha proposta foi desde o início muito bem recebida a apoiada pela Câmara. E assim surgiu um jogo de piratas sobre um forte de Cascais. O jogo está vendido à Câmara de Cascais e o início da sua produção deverá ser nas próximas semanas. Penso que antes do Verão estará à venda nas lojas da Câmara.
- A comercialização, publicação e desenvolvimento de jogos de tabuleiro em Portugal pode ser rentável ?
Espero bem que sim !
Bom, a minha empresa não faz apenas projectos destes. Trabalhamos e criamos muitos outros tipos de projectos de design e publicidade. Mas no futuro tenho esperança que cada vez mais a criação de jogos de tabuleiros seja uma parte muito importante na nossa facturação.
Claro que tenho consciência que em Portugal temos que usar outros moldes de abordagem, pois o nosso mercado é muito pequeno. Os jogo puramente comerciais apenas têm viabilidade se editados por uma editora com capacidade para uma distribuição internacional. E isso é possível, mas muito difícil. É extremamente difícil ter acesso a essas editoras. Mas em Portugal, se criarmos jogos assentes em projectos culturais podemos ter um apoio maior e alargar o público de modo a viabilizar o jogo.
- Aljubarrota é o seu mais recente projecto ainda em fase de protótipo. O que nos pode revelar sobre este projecto?
É um projecto no qual eu tenho grande esperanças, pois acho que está um jogo original, divertido e que reflecte a realidade histórica da batalha. Que eu tenha conhecimento não existe nenhum projecto similar sobre uma batalha portuguesa e portanto só neste aspecto já é único. Já foi bastante testado (inclusive por pessoas ligadas à LeiriaCon) e foi muito bem recebido. De momento estamos a negociar com eventuais patrocinadores a sua produção. Mas estas coisas demoram sempre muito tempo e por vezes são muito mais lentas do que desejaríamos. Mas com certeza há-de ser um jogo que será produzido. Mas é muito cedo para dizer quando!
- Que projectos para o futuro ?
De momento estou a desenvolver um projecto que foi encomendado pela Câmara Municipal de Oeiras - um jogo sobre o Marquês de Pombal (para quem não sabe, o Marquês foi o 1º Conde de Oeiras). O jogo tem de ter como cenário a Quinta de Recreio do Marquês em Oeiras. É um enorme desafio devido à complexidade da personagem. Tentar transpor para um jogo de tabuleiro que se destina a famílias um personagem histórico com as características do Marquês não é fácil. Mas é fascinante!
- Que conselhos daria a um jovem criador (de jogos) anónimo em Portugal ?
Persistência. Humildade "...não, não foste o único a criar o melhor jogo do mundo!...". E não se limite a olhar para os jogos. Um criador de jogos é um criativo e quando nos fechamos apenas no nosso "mundinho" de jogos estamos a perder imensas fontes de inspiração.
Como criador podemos optar por apenas criar a ideia e tentar vende-la a uma editora. Ou então fazer tudo, como eu faço. São processos muito diferentes. Mas eu diria que uma abordagem relativamente fácil é entrar em concursos de jogos como por exemplo Concours International de Boulogne-Billancourt - Paris.
Por exemplo, na altura que entrei com ALMEIDA nesse concurso quem ganhou foi um português - desconheço quem é mas gostava muito de o conhecer e ver o projecto. Esses concursos dão acesso a editoras de jogos que de outro modo tornam-se muito difíceis de aceder. E assim podem ser a porta de acesso a editar jogos.
- Em sua opinião, o que pode ser feito para o incremento do hobbie em Portugal?
Do meu ponto de vista o mundo de jogos de tabuleiros está muito fechado sobre ele próprio. Em relação a algumas comunidades parece que aquilo são coisas só para meia dúzia de iluminados. Existem vários meios para conseguir incrementar os jogos. Primeiro de todos é chamar miúdos/famílias para os jogos.
Através de escolas e autarquias e pequenos clubes recreativos realizar torneios com jogos simples e de fácil acesso. Existe muito interesse da parte de muita gente sobre jogos de tabuleiros. Mas a maior parte delas nem sabe onde se vendem os jogos - limita-se a procurar no Toys"R"Us.
Estas iniciativas cabem normalmente às distribuidoras de jogos, mas existem comunidades de jogadores que podem também contribuir para isso. Por exemplo, quantos professores de História não gostariam de usar o MEMOIR 44 para explicar aos seus alunos a 2º Guerra Mundial? Ou por exemplo, na LeiriaCon haver um torneio com um jogo simples, onde cada pessoa tem de levar uma amigo que nunca tenha jogado? Ou um torneio onde cada participante tem de ser uma dupla pai/filho? Estes são pequenos exemplos das muitas coisas que podem ser feitas para divulgar este hobbie.
Os jogos de tabuleiros não são incompatíveis com uma era de tecnologia e consolas/computadores de jogos. São realidades diferentes e que se complementam. Mas nos jogos de tabuleiros temos uma realidade que ultrapassa em muito o mero aspecto lúdico. A conversação, confronto, conversa cara a cara (sem SMS's) são características únicas dos jogos de tabuleiros que contribuem para uma aprendizagem e educação do ser humano. Os jogo de tabuleiros não são apenas para pessoas que não gostam de ar livre ou não têm jeito para o desporto. Por isso, são tão importantes. Se conseguirmos passar isso cada vez que convidamos um amigo, cada vez que divulgamos este hobbie, tenho a certeza que mais pessoas irão descobrir este mundo fascinante.
mais: Gil D'Orey design - http://www.giloreydesign.pt



9 comentário(s):
Muito bom.
Uma entrevista simples e directa a um dos poucos (será???) criadores de jogos a nível nacional.
Espero conhecer mais coisas sobre o Gil na LeiriaCon ;)
Abraço.
Bem, não conhecia que havia tantos projectos sobre jogos nas camaras de oeiras e cascais.
O que é curioso e não deixa de ser ironico é que, há uns tempos, eu e alguns jogadores da linha tentámos arranjar um espaço para realizarmos uma vez por mês os nossos encontros. Mandámos mails para todo o lado e também, como seria de esperar, para a Camara de Cascais e Oeiras. O resultado foi o que se adivinhava. Nem uma resposta.
Agora dou de caras com uma entrevista a um designer que foi contratado para desenvolver jogos de tabuleiro para a Camara de Cascais e Oeiras.
Este mundo dos municipios faz-me cá uma confusão...
Esperemos então que os jogos sejam bons!
Eu já tive a oportunidade de jogar Aljubarrota e está ali um belíssimo jogo.
Muito boa a entrevista.
Se há coisas boas que podemos fazer pelo hobby dos jogos em Portugal é ter designers portugueses a publicar em português sobre Portugal. Não pode haver nada mais importante a fazer para espalharmos a semente.
Abraço
PS
Pois pois... isto dito pelo gajo que não se quis "auto-sacrificar" pelo bem maior da nação e preferiu alterar a história. "Adorador" de espanhois.
Não, agora mais a sério. Um jogo bem bom, virado para o mercado mais familiar. Apesar de ainda estar em prototipo já está bem "apresentável" e com uma dinâmica muito interessante.
Bom trabalho.
Muito boa entrevista e muito boas respostas. E com muita razão nalguns pontos. Uma lição para todos nós.
Boa entrevista.
Também eu já experimentei o ALJUBARROTA e fiquei bem impressionado pelas originais mecanicas do jogo. Um cooperativo familiar com componente competitiva. Obriga os jogadores a um trabalho de equipa, mas deixa espaço para as estratégias individuais, porque ou perdem todos e ganham os espanhois (ganha o jogo), ou entao reescreve-se a história, mas de todos os vencedores há um que é o verdadeiro herói.
Gostei bastante do jogo. Tanto mais sendo um desenho portugues, feito por um portugues e àcerca de um pedaço da nossa história. Parabéns Gil!
Quanto ao resto... foram lançadas muitas ideias para uma longa discussao sobre o futuro dos boardgames em Portugal.
Nós cá vamos estando, como sempre, para apoiar e aplaudir este tipo de iniciativas.
Venham mais jogos portugueses...!
Interessadíssimo em experimentar o Aljubarrota no LeiriaCon. Espero que lá esteja presente.
Pois eu já tive a oportunidade de jogar o OITAVOS e aguardo ansiosamente pela produção!
Muito giro, muito dinâmico, muito animado!
Parabéns ao criativo.
Eu também já testei o OITAVOS e gostei muito. Tem ritmo e interacção entre os vários jogadores.
Parabéns Gil, vais longe.
Nós estamos cá para te apoiar, testar e sobre-tudo JOGAR!
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