Na mesa repousa já o tabuleiro aberto. Olho o interior da caixa e numa amálgama de cores e formas ou numa separação mais ou menos compartimentada descortino-os: ali estão eles, os cubinhos de madeira!
Agora já é possível jogar, já há o que colocar aqui ou ali, já tenho o que tirar de cá para meter acolá…
Mas outras formas querem saltar para fora da caixa. Acham-se cilindros obesos, discos simpáticos e moedas nada luzidias. Encontram-se ademais indiferenciadas figuras, pretensiosamente humanas e maços de cartas ainda preservados pelo recorrente celofane.
Era previsível toda esta tralha, a ver pelo peso da caixa. Mas sou amiúde surpreendido por mais este ou aquele componente, ainda que em outras tantas ocasiões se trate apenas de mais um adereço quase dispensável…
Acorro a libertar os cubinhos. Porque, quais peões num tabuleiro de xadrez, são verdadeiramente os reis do tabuleiro.
Ou dos “tiles”!
Sejam mosaicos que se aplicam sobre o tabuleiro ou apresentem-se apenas como guias auxiliares de jogo, os pedaços de cartão aparecem em inúmeras oportunidades a dominar o terreno.
O rijo cartão prensado encaixa-se em esquadria ou hexagonalmente e ostenta letras, números e figuras. Soltam-se em pequenas fichas de forma circular, rectangular ou quadrada, que fazem de fábricas, armazéns, comida, materiais, tesouros, benesses, animais…
Noutros desenhos os cartões assumem o papel de pequeninos tabuleiros onde, não raras vezes, deparamos com espaços quadrados para meter… cubinhos!
Deliciosamente, toda esta panóplia de faz de conta, antes de se fazer à mesa, necessita, num misto de ansiedade e pena, de ser destacada das folhas de cartão que saíram da tipografia directamente para a caixa. E por momentos, breves instantes, imagino operários alemães debruçados sobre as máquinas ou pequenos chineses a correr de um lado para o outro.
À semelhança do que se passa com os tabuleiros de arte mais enlevada, adivinho quem se sinta compelido a gostar um pouco mais dum determinado jogo pela qualidade dos seus componentes. Ou até só pela quantidade, como se a pinta dum jogo se topasse também pelo peso da caixa e de tudo o que esta aloja.
Daqui a pouco tudo fará sentido, espalhado pelo tabuleiro a meio duma jogatina fabulosa. Como por magia, aquela magia que encerra a caixa e exala o tabuleiro, saltam tigres, labutam operários, transporta-se argila, escava-se minério, vende-se fruta e compra-se roupa. Há moedas a passar de mão em mão, canhões a disparar, barcos a navegar, aldeias a nascer num ápice, negócios florescentes e portos entulhados de mercadorias!
Lá mais para Dezembro pode até dar-se o milagre de outro sentido tudo ter. Até os cubinhos.


5 comentário(s):
Será que queimam bem na lareira? É que sempre se podiam usar como acendalhas, sei la!
Muito bom. Essa magia é que não devia desaparecer. O "profissionalismo" dos jogadores torna essa paixão um bocadinho obsoleta. Como se tivéssemos deixado de vestir a camisola e agora já só jogássemos por quem paga mais.
Era bom que voltássemos a olhar para tudo assim, como se fosse o primeiro Catan ou até o primeiro Risco - novidade, emoção, cumplicidade e, no final, prazer cumprido.
Um excelente começo com pura poesia. Adorei.
Boa primeira malha, curtia saber qual foi o primeiro jogo que usou cubos de madeira...
Muito bem Sr. Rola. Que a magia dos cubinhos continue...
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