03/10/2006

Louis XIV, crítica

Este fim-de-semana foi dedicado, parte dele, a Luis XIV. Muitos pensarão que dedicar somente um dia ao Rei Sol será, pelo menos, uma afronta a magnânime existência. Talvez. Por cá achámos que baste. Não pela falta de qualidade do jogo, disso não padece, padece sim, ou antes, parece sim, um pouco enfadonho. No bom sentido, claro. Porque nestas coisas, até o enfadonho terá um bom sentido…
Na verdade, a corte de Louis XIV sempre foi algo que me entusiasmou. Não sei se pelas imensas histórias que se vêem na indústria de cinema de Hollywood, algumas delas, de belíssimo recorte técnico-táctico, sendo o adjectivo técnico dedicado à película, e táctico, às manobras de bastidores que naquela corte pareciam existir com bastante sucesso, ou antes, pelos relacionamentos poligâmicos que daí nos contam. Eu confesso! Fascina-me o sucesso da poligamia. Tenho, necessariamente, de sublinhar a palavra sucesso. Não me fascina a poligamia, fascina-me o sucesso da poligamia. Coisas diferentes.
E o retrato deste jogo é o espírito da corte de Louis XIV. Várias personagens, umas mais, outras menos, importantes, de onde nós, digamos, influenciadores de opinião, retiramos os nossos favores para chegar ao nosso objectivo: ser o tipo mais procurado pelos favores que pode fazer aos outros, através do poder que atingiu. Rudiger Dorn (Goa) bem podia ter-se inspirado no calciocaos para escrever este jogo. Não fora este, um título do já extinto ano da graça de 2005 e eu quase que apostava uma jantarada de meeples com cerveja, em como foi em Itália que ele se inspirou. Mas adiante…
Cada um dos jogadores, jogando cartas de personalidades, tenta, através de um processo difícil de organizar estrategicamente, colocar os seus marcadores nos diferentes doze tabuleiros que, em espiral, organizam o jogo. Não é fácil, visualmente, lidar com a espiral, nem é fácil contornar o facto de termos poucos marcadores na reserva pessoal e poucos movimentos de tabuleiro para tabuleiro. Nada disso é fácil de gerir. Parece, aliás, ser a componente mais gira de Louis XIV. Toda a forma como nos vamos envolvendo pelos tabuleiros, saltando de um para outro, tentando, com movimentações máximas de três espaços, atingir os nossos objectivos, como que espreitando todas as oportunidades para sermos o primeiro classificado neste ou naquele tile (tabuleiro), que nos irá dar este ou aquele prémio para, no fim do nosso turno, podermos completar esta carta de missão que temos na mão e que, no final do jogo, nos vai dar os pontos vitória que nós precisamos se o quisermos vencer.
Nesta fase, Louis XIV é muito interessante. Denso, com decisões muito difíceis de tomar, cheio de movimentos tácticos, gerir os nossos marcadores, conquistar maiorias, olhar para o dinheiro para saber se podemos comprar favores, espreitar o número de cartas de influência que os adversários ainda vão poder jogar, tudo isto torna o jogo, neste domínio, muito bom.
Mas é nesta fase também, que o jogo se torna maçador. E é uma pena. Porque há, de facto, interacção entre os jogadores, todos estão muito envolvidos, mas a decisão da carta a jogar no nosso turno passa muito, talvez demais, pela última carta jogada. Ou seja, atrapalha a estratégia, sai vencedora a táctica. Nada de mal, até aqui. O problema maior é estarmos todos muito tempo à espera de jogar sem podermos fazer nada. Só depois de vermos a carta que o jogador antes de nós lançou para a corte é que podemos fazer a melhor jogada possível no nosso turno.
Aqui sublinha-se o defeito. Torna-se enfadonho. Mas o problema é humano, não é material. Ou seja, o jogo só se torna enfadonho porque é, de facto, um jogo que exige muita reflexão e empenhamento e, portanto, daí resulta uma análise mais cuidada e demorada. Não dá para jogar rápido. Como não dá para jogar rápido e cada jogador tem de esperar que o outro termine para “atacar as peles”, é incontornável este defeito. Pela dificuldade, não se pode exigir a ninguém que acelere o processamento da jogada. Mas também não se pode apontar este, como sendo um defeito natural, material, do jogo. Não é justo para o autor, nem para o próprio jogo.
Muitos utilizadores consideram este, o melhor jogo de 2005. Outros, alguns deles os mesmos, consideram esta a obra-prima de Rudiger Dorn. Não posso concordar nem discordar, por não ter bases suficientes para o fazer, mas posso afiançar que Louis XIV é um bom jogo, muito difícil de gerir, muito bonito (lá nisso o sacana é bonito), tem uma originalidade tremenda no sistema de rotatividade dos tabuleiros, fazendo o jogo mudar ao longo do próprio jogo, e uma temática muito bem explorada. Curiosa a forma como os favores que se vão conseguindo ao longo do jogo, terem que ver com acções reais de personalidades reais que tiveram, de facto, essa influência, ao longo do reinado de Louis XIV.
Material: 3/3 Interacção: 2/3 Mecânica: 2/3 Tema: 3/3 Estratégia: 2/3 Tempo/Diversão: 1/3 Regras: 2/2
Classificação: 15/20
Paulo Soledade

9 comentário(s):

Unknown disse...

A temática é realmente fascinante.
De certa forma torna-se inutil comentar o teu comentario porque dizes basicamente o essencial...
O factor tempo faz com que o jogo não seja "tcharan"... mas a complexidade e imprevisibilidade das decisões tornam-no um dos mais estimulantes e inteligentes jogos que conheço...
Vivam os Despotas Iluminados!

caminante disse...

Muy acertado.
Un fortísimo abrazo.

Dimitri BR disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Dimitri BR disse...

oi Soledade!

li a resenha e resolvi também dar o meu palpite, muito embora ele seja bem mais uma observação genérica, que uma análise do próprio Louis XIV em questão - visto que só joguei este uma vez, e não estou bem certo sobre os pontos que você levantou.

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apenas adianto que, a se justificarem as suas queixas, acho que você foi condescendente para com o jogo, isentando-o de culpa:

acontece que, caso o jogo seja mesmo eminentemente estratégico, então ele deveria oferecer aos jogadores suficiente material para ficar ruminando enquanto aguardam seu turno - e não, como você afirmou, ter a escolha das ações tão dependente da última carta comprada.

e já se pretendia ter mesmo uma grande componente tática, então o mecanismo deveria prevenir a possibilidade de uma espera maçante, possibilitando (de algum modo que não cabe a nós dizer, ora) turnos mais curtos, ou maior alternância entre os jogadores a tomar ações.

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...claro que, com tantos depoimentos favoráveis ao jogo, a sua experiência também pode ser "culpa" de jogadores excessivamente analíticos e zelosos. :P

em minha única partida lembro-me, sim, de ter quebrado um tanto a cabeça; mas o jogo era em dois (apenas eu e Stein) e, talvez por isso, o intervalo entre o turno de um e de outro não me pareceu excessivo.

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abraços!

ah! linkei o spielportugal lá no obatijolo. :]

soledade disse...

Dimitri,
Pois eu também fiquei na dúvida se deveria, ou não, desculpabilizar o jogo. Se calhar não deveria porque ele, de facto, devia ter uma componente mais interactiva por forma a permitir que todos nós estivéssemos mais ocupados durante os turnos dos outros. Mais estratégico que táctico.
A questão é que, se calhar, eu (e o meu grupo) é que somos demasiado fundamentalistas em relação à questão do tempo, daí eu ter optado por não culpar tanto o jogo e sim dividir as culpas entre nós.
Em relação a jogar a dois, dá-me ideia que não resulta tão bem. Num area control a gente tem de se cutucar uns aos outros. Para isso é preciso sermos muitos. :)

Costa disse...

Enfadonho talvez não seja a palavra mais correcta. O jogo é muito dado ao analisys/paralisys o que o prejudica em certa medida. Mas esse não é para mim o seu maior defeito, se calhar nem é um defeito - é feitio!
O que não gostei em LOUIS XIV é o facto de o jogo ser desiquilibrado, atirando para fora do jogo jogadores que depois terão muita dificuldade em reentrar. Se por algum motivo, um jogador comete uma asneira das grossas num dos turnos, vai ter tremendas dificuldades para recuperar e isso sim é um defeito.
De resto é um jogo bonito e muito bem desenhado. Mas perdoem-me os aficcionados, GOA é muito melhor...
Nota:7 (ainda assim, um 7!)

Hugo Carvalho disse...

Não gosto muito de jogos em que um jogador tenha de "secar" até que volte a jogar. Ainda para mais quando as acções do jogador anterior podem alterar por completo o plano inicial.
O jogo nunca me interessou particularmente mas confesso que o design é uma coisa espampanante.

Mas digam-me lá, vocês passam a vida a jogar?

Costa disse...

Não tanto quanto gostaríamos. Mas se fizermos uma média semanal, somos gajos para jogar 2 a 4 novidades por semana.

soledade disse...

Stein,
Talvez a dois até possa ser interessante... só experimentando.
Acredito que a três deve ser um mau formato, pelas críticas que li e até pelo facto de ter uma regra especial que compensa o jogador número três.

Já agora, alguém, tem uma opinião que sustente o facto de, a quatro jogadores, o 1º e o 2º jogadores comecem com 5 tokens, o 3º com 6 e o 4º com 7? Nós já nos esprememos todas as possibilidades e não conseguimos chegar a nenhuma conclusão de equilíbrio para esta regra.

Abraços
Paulo

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