14/03/2007

Jogo o que bebo

Começo a perceber que os tops são importantes. Reparei nisso quando fiquei muito indignado por ver alguns dos meus jogos favoritos serem maltratados pelas injustiças dos gostos dos outros. Também me apercebi que as listinhas das coisinhas que se querem, são sempre mais ou menos importantes para quem as faz. No meu caso, uso-as, sobretudo, para não me esquecer deste ou daquele jogo que agora descobri, no caso de outros são necessidades, estão no topo, ou na base, da pirâmide de Maslow.

Mas o mais importante, por aquilo que me foi dado a perceber, é a constante mutação. Eu, como muitos, sou um jogador temperamental. Gosto disto hoje, muito mais do que vou gostar amanhã. Gosto menos daquilo amanhã muito menos do que irei gostar no dia seguinte. E assim se vão fazendo as wishlists e os tops, com alterações de última hora, com assombros de boas ou más disposições, com alterações de humor, ritmo diário, parceiros de jogo e outras coisas mais ou menos humanas.

Quando comecei a jogar Risco era o jogo dos jogos. Como costumamos dizer por aqui era "o jogo". Chamávamos "o jogo" ao Risco como bebíamos uma garrafa de Porta da Ravessa achando que era o melhor vinho do mundo. Tinha uma entrada agradável, era um alentejano simples, fácil de beber. Nesta altura gostávamos de Risco porque não conhecíamos mais nada.

Começámos, com o advento do BGG e outros quejandos, a gostar, experimentar, outras coisas mais complexas. Entraram nas nossas considerações alguns jogos de que se falavam muito. Já havíamos experimentado o Descobridores de Catan, grande jogo, uma descoberta imensa, um vinho menos chato que o Porta da Ravessa, muito mais complexo, cheio, redondo, uma entrada não tão simples mas com um final muito mais longo. Tanto assim é que nos fez viajar até ao Douro. É uma região muito mais difícil que o Alentejo mas muito mais interessante também. E aquilo que não percebemos faz-nos, normalmente, avariar o sistema e entrar em ruptura com um dos dois neurónios que resistem à mudança. Aquela coisa de não ter os triliões de dados para lançar era estranho mas bom. E depois veio o Puerto Rico.

O Carlos manda-me um sms de Lisboa, textualmente - "Puerto Rico é "o jogo"". E ele tinha razão. A partir dessa data deixámos, completamente, de beber Porta da Ravessa. Descobrimos o Douro, começámos a gostar de vinhos brancos também, alguns mais estranhos como um Riesling de aromas petrolados e minerais a fazer lembrar um Power Grid, complexo, difícil de apreciar mas brilhante, ou um Gruner Veltliner austríaco com aroma de legumes cozidos, ainda mais estranho mas absolutamente brilhante, como um Tigris e Euphrates.
De repente apercebo-me que deixei de gostar de vinhos fáceis e polidos e que me chamam mais a atenção os vinhos mais machos, mais angulosos, deixei de ter uma região favorita e comecei a desbravar territórios. Os jogos alemães, eurogames, começaram a ficar misturados com os jogos americanos e apareceram os Martin Wallace. Sistemas integrados de clássico wargame com eurogame. Um vinho difícil de digerir, cheio de nuances, muito complexo, uma estrutura infalível. Marcadamente másculo a parecer um Mouchão ou até um Batuta da década de 90. O corolário acontece com Liberté. Não merece o epíteto de melhor vinho do mundo, mas tem classe internacional. É complexo e encorpado como os magníficos e superlativos australianos que temos de beber de faca e garfo. Tem a elegância de um Bordéus novo e bebe-se sem acompanhamento. O vinho pelo vinho.
Lembro-me também de ter ficado esmagado quando bebi um Die Macher de 1986. Talvez o melhor que se pode dizer deste jogo é a idade que ele traz. Impressiona o vigor, a juventude. Um jogo de classe internacional, sem dúvida, que tem de ser servido acompanhado de uma boa feijoada, para ser mais prosaico. Um Die Macher a acompanhar uma bela duma feijoada, pensem nisso!
Mas como no vinho, também os gostos pelos jogos vão mudando. Voltei aos grandes clássicos depois de ter passado a fase dos absolutamente impenetráveis de aromas e de corpo. Regressei aos elegantes, polidos e belos vinhos do Douro. Os Barca Velha, Chryseia. Os internacionais de Bordéus. Dá-me ideia que pelos jogos vou passar o mesmo deserto. Estou naquela fase das quarenta páginas de regras, um jogo a beber com moderação, muito alcoólico, carregado de cor, a lembrar um vintage de 1994. Mas entendo que dos vintage de anos declarados aos rosés bem feitinhos, como será um La Strada ou um Yspahan, vai uma muito pequena distância. Depende muito daquilo que se come e com quem se bebe. E as minhas listinhas e os meu tops vão-se ressentir disso mesmo. Prevejo começar a beber rosé daqui a, mais ou menos, um ano. Mas acho que não torno ao Porta da Ravessa. A não ser que seja de um ano excepcional!

8 comentário(s):

BrainStorm disse...

Fantástico, como é habitual.

Já tinhamos discutido este tema de forma mais ligeira... a minha pergunta permanece. O que é que nesta analogia é represntado pela cerveja? E qual cerveja?

Um post que fica para o #NBS# :P

Costa disse...

Sem palavras...

Hugo Carvalho disse...

Grande post.
Por norma tenho tendência a gostar imenso de tudo o que se afaste das tradicionais criticas e session reports.
Também eu acho que vinho e jogos casam muito bem. Aliás tenho pena que só um grupo que joga comigo é que gosta de beber vinho enquanto joga, curiosamente é o que joga ocasionalmente e são pessoas que nem sequer compram jogos. Mas perceberam bem a dimensão social da coisa. O Luís tem sempre a amabilidade de trazer, sempre que organizo uma sessão com eles, um queijo da serra e uma garrafa de vinho do porto. Depois ficamos a tarde toda a jogar, a beber vinho, a comer chouriço e queijo e posso dizer que não trocava nenhuma dessas tardes por nada.
Este fim-de-semana experimentei o Die Macher e aquilo é jogo que merece uma bela duma reserva.
Ao contrário do que julgava inicialmente, não me parece que cerveja seja uma boa companhia para os jogos de tabuleiro. Cerveja é mais para Poker, Sueca e Futebol.
Seja como for, vejo que partilhas comigo o gosto pelo Douro e deixo-te um conselho: Porca de Murça Reserva. O preço é 8 euros e é um vinho do catano. O nome Porca de Murça pode trazer alguma desconfiança, mas o reserva deles (2004, 2005 ainda não experimentei) é de lhes tirar o chapéu.
Um abraço!

Unknown disse...

Cerveja e jogos de tabuleiro

por #nbs#


A cerveja é como os jogos: BOA !
BEM BOA !

Unknown disse...

Quanto ao texto...

Excelente. Original.
Confesso que não percebi metade... mas enfim aparas de lápis e repolho... não é para todos...

ps-Qual último tile de batalha qual quê... é para traçar... Viva o TRAÇADINHO WAY OF LIVE (PLAY)!

Azulantas disse...

Bem, rendo-me. Vocês, dos blogs portugueses acerca de jogos de tabuleiro, escrevem posts cada vez melhores e eu fico aqui a babar-me, a espumar da boca só de ler.

Vou mas é dedicar-me à pesca da amêndoa enquanto é tempo.

Parabéns Paulo. Sensacional!

Azulantas disse...

Bem, rendo-me. Vocês, dos blogs portugueses acerca de jogos de tabuleiro, escrevem posts cada vez melhores e eu fico aqui a babar-me, a espumar da boca só de ler.

Vou mas é dedicar-me à pesca da amêndoa enquanto é tempo.

Parabéns Paulo. Sensacional!

soledade disse...

Obrigado pelos elogios. Algo exagerados alguns - e isto não é falsa modéstia.

Apesar de tudo reconheço que gostei do resultado final. Acho que consegui dizer, mais ou menos, aquilo que queria. Não sei ainda aquilo que pensam acerca das vossas wishlists e tops (classificações de jogos). Se as entendem de uma forma mais cristalizada ou também em constante mudança. Se as acham necessárias, tipo compartimentadas em classes, para sossegar as mentes, ou se, simplesmente, são resultado de uma espécie de organização mais ocasional que necessária, de lembretes.

@hugo
Incluido nos agradecimentos aos elogios, claro, fica também a promessa de experimentar esse tal Porca de Murça Reserva. Nunca experimentei. também como nos jogos gosto de uma boa relação qualidade/preço. Para isso consegui o Domaine versão francesa da Tilsit. O jogo é bom, o preço também, a produção magnífica!

@nbs
Ainda estou à espera de uma reportagem prometida quanto mais de um texto em jeito de freelancer sobre cerveja. O melhor é jogá-la!

@hmocc (Hugo)
A pesca da amêndoa parece ser um bom tema para um post num futuro próximo. Quem sabe uma analogia com amêndoa amarga?! ou frangelico?! Olha! Vai-se a ver... soa-me a um bom plano.

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