13/04/2008

Vino, review

O mundo de boardgames, em termos de tempo de vida das publicações, é efémero. Não no sentido clássico, claro, mas antes no sentido em que muitos boardgames são publicados, esgotam-se e nunca mais se ouve falar deles, enterrados em colecções onde são pouco jogados e eventualmente esquecidos devido à pouca visibilidade que o boardgame obtém em vários sites. Vino é um tal boardgame, publicado, comprado e eventualmente esquecido pelas massas. Mas com alguma sorte esta review irá reavivar memórias de um boardgame que é genial à sua maneira apesar de demonstrar uma simplicidade que ajudou a pavimentar o caminho para os euros de hoje em dia .
Vino é um jogo feito por Christwart Conrad, cujo trabalho mais famoso seja Medieval Merchant, e publicado em Inglês em 1999 pela Rio Grande Games. O objectivo do jogo é bem simples, adquirir herdades pela Itália toda e produzir vinho, que será vendido mais tarde. O problema é que regiões diferentes produzem vinhos diferentes, e o mercado de vinhos é dinâmico, ou seja, a procura e oferta do mercado determina o preço dos diferentes tipos de vinho. Podemos ter Montepulciano a um preço barato e Pinot Grigio bastante inflacionado quando um jogador vende bastante Pinot, tornando-o muito mais barato enquanto que o Montepulciano aumenta o valor. O dinheiro neste jogo serve para comprar mais herdades e quem tiver mais herdades no fim ganha.
A análise então.
A apresentação deste jogo seria fenomenal para a época se não fosse um pormenor que estraga quase tudo. Primeiro as regras. São típicas da Rio Grande Games, bem estruturadas e organizadas. São curtas apesar de não serem muito simples, há certos pontos nas regras que podem causar confusão a alguns jogadores, mas fora isso é um bom manual que, apesar de tudo, recomendo que se leia umas 3 vezes para evitas confusões com os pontos obscuros acima mencionados. O formato da caixa é o formato clássico, tipo Puerto Rico ou Goa enquanto que o insert é, bem, inexistente. Basicamente um cartão colorido a separar a caixa em dois e sem lugar para guardar os componentes. Ah sim, os componentes, o pormenor que estraga tudo. A principio quando se abre a caixa parece tudo muito bem e contém componentes excelentes, ademais considerando a altura em que o boardgame foi publicado. Agora esses componentes não são nada de mais mas para a altura era bem bom. Temos barris de vinhos, garrafas, chits opacos em várias tonalidades, uvas pequenas que não passam de pequenas bolas e um tabuleiro. E estes últimos componentes estragam quase tudo. Para começar o tabuleiro está bem feito e é funcional com a excepção de um pormenor muito importante, as cores. As cores são tão esbatidas, tão parecidas que este jogo é literalmente impossível de se jogar se se for daltónico, e se não se for mesmo assim teremos dificuldades em diferenciar as cores. Em termos de design de tabuleiro isto vai muito além do problema das comparação das cores entre as cartas e tabuleiro do Liberté. Isto é, de facto, uma lição em como não colorir um tabuleiro. O segundo problema são as uvas, as pequenas bolas. Elas servem para marcar o nosso stock de vinho, mas o grande problema é que temos que ter muitas delas, muitas mesmo, e não são nada práticas para marcar. Pior, precisamos delas para as marcar pois o cartão usado para manter o stock de vinhos vem perfurado de maneira a que só as uvas possam ser usadas para marcar os stocks. Agora imaginem que uma destas coisinhas pequenas e escuras escorrega-vos da mão e rebola sabe-se lá para onde. Prontos, já tem o jogo tramado pois as uvas são essenciais e alternativas para marcar os stocks não existem ou não podem ser feitas de maneira fácil e conveniente. Enfim, outros tempos, outras alturas e agora estes erros já não são tão persistentes nos jogos de hoje em dia, mas ainda existem.
Em termos de tema sinceramente este é quase um abstracto basicamente. Tema é bem pouco, mas também é um euro de 1999 portanto não se pode esperar um Taluva ou mesmo um Agricola. Apesar disso este jogo funciona bem, o tabuleiro ajuda a focar os jogadores na Itália e um pouco no negócio do vinho mas, no fim, este jogo não passa de um abstracto que se tenta vestir com um tema e ve que não lhe servem muito bem. Mesmo assim não é motivos para se ficar desmotivado pois o jogo funciona muito bem e é agradável de se jogar. Logo o tema, apesar de ser colado a cuspo acaba por fazer o trabalho de evitar que os jogadores pensem que estão a jogar a um abstracto puro. O que é pena pois este é um tema bem bom que podia ter sido mais explorado e melhor implementado neste jogo mas prontos, faz o trabalho e não podemo-nos queixar muito.
Estratégia e táctica. Este jogo tem uma boa combinação de ambos, muito boa mesmo. Temos que pensar no que queremos comprar, em que herdades apostar e em que tipo de vinhos produzir mas o mecanismo de preço dos vinhos garante que cada acção nossa terá uma repercussão que se fará sentir durante a maior parte do jogo o que nos obriga a pensar com muito cuidado as jogadas que queremos fazer no futuro. É aprazível ver tal combinação eficiente entre táctica e estratégia ao ponto que o uso de um influencia bastante o outro e ambos estão muito interdepentes durante o jogo todo. É um bom exemplo de um design bem pensado e executado e como tal torna-se um bom jogo para jogar e para vermos como os euros eram antes antigamente quando a moda dos euros ainda não tinha bem pegado. Apesar das estratégias não serem realmente profundas elas acabam por ser determinantes no jogo. O aspecto do mercado ter preços que flutuam obriga a uma constante adaptação da estratégia e táctica usada o que torna tudo sempre muito imprevisível e excitante. Um jogador terá que ser bom a pensar tanto a curto-prazo como a longo-prazo se pensa ganhar e este jogo acaba por ser um bom estimulo mental nesse aspecto. O aspecto de secret bidding para comprar herdades também induz uma imprevisibilidade ao jogo que acaba por tornar tudo mais interessante em vez de retrair, pois os jogadores terão que também conhecer bem os oponentes para saber o que eles vão fazer a seguir. Um bom exemplo de um euro com um excelente equilíbrio entre táctica e estratégia.
A sorte neste jogo é mínima mas importante. Basicamente a grande parte do factor sorte encontra-se logo no inicio do jogo na forma de escolher as duas primeiras herdades que cada jogador terá, um processo feito de maneira arbitrária. Isto vai determinar todo o rumo de jogo para os jogadores pois cada região tem vinhos diferentes e podemos ter o azar de calhar numa região que produza vinhos de valor inferior logo ao inicio do jogo. Mas fora isto a sorte de mecânica não entra em jogo. A sorte do elemento humano, no entanto, é extremamente forte neste jogo e como tal é um jogo que depende muito das habilidades dos jogadores em tentar adivinhar as jogadas dos outros jogadores. O secret bidding e o não saber exactamente que vinhos um jogador irá vender são sempre factores a considerar durante o jogo. Felizmente isto só torna o jogo mais agradável, principalmente para os jogadores que gostem muito de tentar adivinhar o factor humano de qualquer jogo. Mas em termos de sorte inerente ao próprio jogo, é mínima e este jogo é um euro típico.
A interacção entre jogadores é alta, apesar de ser quase sempre indirecta e, de certa forma, passiva pois um jogador nunca tem confrontos directos com outros jogadores. Mesmo assim um jogador terá sempre que lutar pelas herdades e por ser o primeiro no mercado a vender um vinho de alto valor antes dos outros oponentes. Isto faz com que os jogadores estejam constantemente envolvidos uns contra os outros apesar de indirectamente. Ou seja, não há conflito directo, mas conflito indirecto é constante e é parte integral deste jogo. Todos lutam pelas herdades e para vender o vinho melhor. Como tal se gostam de jogos com interacção alta apesar de relativamente indirecta e passiva então este jogo é perfeito para vós. Os jogadores estarão sempre a competir ferozmente uns contra os outros, algo que poderá não agradar a toda a gente, mas que é um dos pontos fulcrais deste jogo, o constante assédio entre os jogadores apesar de indirecto. É, sem duvida, um jogo agressivo, mesmo que nunca nenhum jogador troque golpes no jogo entre si. Um bom exemplo de como fazer um jogo com uma interacção entre jogadoras bem alta apesar de nunca haver confrontos directos entre os jogadores.
Quanto ao peso, diria que este jogo é um perfeito Middleweight. Não é um jogo leve mas também não é pesado o suficiente para deixar marcas nos jogadores. Cabe facilmente no meio termo, um jogo nem leve nem pesado, um euro típico e normal. É um jogo que nos obriga a decisões constantes e importantes mas que não são decisões criticas nas quais o destino do nosso jogo está dependente completamente. Como tal é um bom joguinho para quem quer pensar e ser-se confrontado com dilemas mas sem nunca obrigar os jogadores a suar e a ruminar por causa de uma única jogada.
Em relação a ser um Gamer's Game ou um Filler, não é nem um nem outro. É o típico jogo que se leva a mesa para jogar como um dos jogos principais e nunca como um jogo que se quer jogar durante dez minutos ou mais de duas horas. É um euro middleweight e, como tal, não se encontra em nenhum extremo dos espectros existentes no mundo de boardgaming.
A longevidade deste jogo é a normal para um euro, suponho. Não é um jogo que nos agarre e não nos largue durante muito tempo mas também não é um jogo que se descarte e se esqueça dele facilmente. Acaba por ser um jogo que acabamos por trazer à mesa de tempos a tempos, não tanto para matar saudades mas mais para jogar a um bom jogo. Mas não é um jogo que queiramos jogar ininterruptamente, é um jogo que, tal como um bom vinho, deve ser apreciado com calma e descontracção e que não beneficia pressas. Tal como um vinho, a idade faz este jogo ter um sabor mais apurado, tal como um velho Porto que se bebe de vez em quando e apreciamos a sua qualidade, mas que se for bebido duma vez só perde toda a sua magia. É um boardgame com uma longevidade boa desde que não abusem a jogar muitas vezes o jogo.
O dinamismo deste jogo é algo incrível, principalmente para o tempo que foi feito. O dinamismo existente entre a estratégia e táctica é algo fundamental para o bom jogar e a imagem de marca deste jogo. A constante evolução das condições mecânicas do jogo, tal como o mercado de preços, aliado ao elemento humano que é bem forte torna este jogo um verdadeiro festim para quem goste de observar dinâmicas de jogo. Mais, estas mesmas dinâmicas são o que tornam este jogo em algo especial, em algo que se joga e sai-se sempre agradavelmente surpreendido de cada vez. Um excelente exemplo de como a combinação do aspecto mecânico do jogo combinado com o aspecto humano transformam-se numa verdadeira cadeia de dinamismo. Eu acho que este jogo é um bom, não excelente mas bom pois hoje em ida há melhores exemplos, exemplo para quem é designer de boardgames ver como se pode inserir ambos os aspectos e transformá-los numa boa dinâmica.
As mecânicas do jogo foram originais na altura e bastante apelativas mas infelizmente o ponto fraco são as próprias mecânicas em si, pois são bem secas, o que era habitual para os euros dessa altura. As mecânicas são funcionais, eficientes, fazem o seu trabalho bem mas no fim são demasiadamente secas, sem adicionarem mais excitação ao jogo para além do que é essencial, o que é uma pena tremenda pois se as mecânicas fossem mais vivas este jogo sem dúvida teria se tornado mais famoso do que foi. Seja como for elas são variadas e inovadoras, pois este jogo tinha a mecânica de especulação de preços de bens, algo que ainda se vê muito pouco, e simultaneous action selection combinado com area control. Só é pena ter tido tão pouca publicidade na altura pois senão este jogo talvez fosse mais conhecido.
Este jogo não é aconselhável a novatos, nem de longe. Este jogo é horrível para introduzir a novatos. O parco tema, as mecânicas secas, a relativa natureza agressiva do jogo são todos pontos fortes para afastar qualquer novato que jogue a isto. Basicamente é um jogo que deixa invariavelmente más impressões a novatos e, como tal, não posso recomendar este jogo a novatos, nunca. Há muito melhores por ai e este não é nada aconselhado.
O problema de analysis paralysis não é preocupante neste jogo mas acontece e com alguma frequência. Felizmente as decisões não costumam ser muito pesadas o que faz com que sejam mais rapidamente concluidas. Mas que o jogo é bastante propicio a analysis paralysis isso ninguém poderá negar, portanto se o vosso grupo é muito dado a analysis paralysis então este jogo irá sofrer bastante disso. Se por outro lado o vosso grupo é fluido a jogar então não haverá problemas de maior.
O downtime do jogo é bom, não se espera muito tempo pela nossa jogada apesar de poder haver turnos em que nós pura e simplesmente podemos não conseguir ou não queremos jogar e isso irá fazer aumentar tremendamente o nosso downtime. Não é como outros jogos em que os turnos passam e todos jogam por ordem, neste jogo poderá haver alturas em que ficamos sem jogar durante algum tempo. Portanto é um jogo para jogar se não se importam de downtime, que poderá ser considerável e que é sempre variável de turno para turno.
O visual do jogo é apelativo, apesar das cores esbatidas. Uma pessoa irá sentir curiosidade em ver um tabuleiro e componentes tão singulares e irá perguntar-se do que se trata. Mas a idade já se faz sentir e a maioria dos jogos hoje em dia tem um visual muito mais apelativo e forte. O visual deste jogo é o visual clássico de um euro anterior a 2000.
Quanto ao tempo de jogo, entre uma hora e uma hora e meia é quanto bastará para acabar uma sessão de Vino. É um jogo relativamente rápido mas que mesmo assim acaba por demorar um bocadinho mais de tempo do que realmente devia.
E é isto.
Este foi dos primeiros euros que comprei, em 1999 no mesmo mês que foi lançado. Já tinha jogado ao Medieval Merchant e estava curioso para ver como seria o próximo trabalho de Christwart Conrad. Não me fez lançar foguetes mas surpreendeu-me pela positiva pois é algo completamente diferente do Medieval Merchant. É um joguito que, infelizmente, nunca recebeu o reconhecimento que merecia. Vendo o BGG os jogos deste autor não tem uma média muito boa e isso faz com que poucas pessoas se interessem pelos jogos dele.
Bem, eu digo que este jogo merece ser investigado. Merece ser jogado. É um bom jogo, não excelente, não fenomenal, nada que revolucionasse o mundo de boardgaming, mas é um bom jogo. Acima de tudo é um jogo que dá prazer jogar, um jogo que surpreende pelas mecânicas apertadas e eficientes.
Já out of print à bastante tempo, eu tenho em boa verdade que afirmar que não tenho a certeza se este jogo valerá o trabalho de procurar e encontrar uma cópia e comprá-la aos preços exorbitantes de hoje, mas que não me arrependo de a ter comprado em 1999 isso não me arrependo nem um pouco. E para quem se interesse por euros, então este jogo será uma delicia.
Agora o jogo está na minha colecção, guardado mas nunca esquecido. Tal como uma garrafa velha de uma boa colheita de Porto, este jogo vê a luz do dia de vez em quando para ser degustado tal como se fosse um Porto, para apreciarmos o sabor e paladar e guardarmos de volta para ser apreciado noutro dia, deixando as boas memórias nas nossas mentes que nunca serão esquecidas.
Um bom jogo.
15 de 20.
http://www.boardgamegeek.com/game/142
MGBM

5 comentário(s):

Epidicus disse...

Ah, o vinho, o vinho...

Abraco desde a Irlanda! Bons jogos!

Bruno Valério disse...

Boa review, o tema no entanto é algo que não me atrai minimamente.

E com tanto jogo "melhor" por aí será muito complicado dar a este Vino alguma atenção.

Sim eu sei, eu sei... tenho de começar a beber o quanto antes.

Unknown disse...

Vinho é o departamento do Soledade...
Aqui é o departamneto da bejeca ...
Quanto ao jogo, nunca joguei. O tema é bom, ao que parece merece uma oportunidade e conhecendo a garrafeira de jogos do sr da t-shirt do Che diria que não deve faltar muito...
Boa review

#rui
boas da Lusitânia !
Espero que a Irlanda seja tudo o que dizem e mais um bocadinho.
Nós por cá... jogos.

soledade disse...

Rui, abraço. Está frio aí? :P

Eu tenho muita curiosidade em conhecer este jogo. Sou um aficionado do vinho e a produção deste jogo parece ser muito boa. É bonito, pelo menos. O problema é o jogo estar tão caro.

Eu tenho o Medieval Merchant que, segundo consta, é um belíssimo jogo de economia mas, ainda não tivemos oportunidade de experimentar. Seguindo aquilo que dizes, fica até uns furinhos acima deste Vino, embora com pretensões diferentes, claro.
Boa review.

Anónimo disse...

Obrigado a todos. :D

@soledade: Yeap, este joguinho é mesmo bonzinho. O Medieval Merchant é talvez um bocadinho melhor, sim, mas atenção, aquilo não é bem um jogo de economia, é mais um train-connecting game mas sem trains. :p Seja como for o MM é um bom jogo mas muito demorado, mas sempre dá para 6 jogadores. O Vino é algo diferente, mesmo dos euros hoje em dia. Pena ser tão caro.

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