21/07/2010

Yada yada

A verdade é esta: a minha memória já não tem a capacidade que terá tido.
O meu filho já contribuíra decisivamente para eu entrever esta realidade ao derrotar-me sistematicamente no Ekec Pekec ou qualquer outro jogo de memória. O facto de já pouco recordar do que aprendi ou terei aprendido na faculdade, quando no trabalho preciso de aplicar conhecimentos supostamente adquiridos nessa altura, também me deixa apreensivo. Mas a dificuldade que tenho em relembrar as regras dos jogos é que me mata!
Recordo mais facilmente a cena do estrume de vaca da telenovela “O Casarão” ou a letra do “Jeremias, o fora da lei”, do Jorge Palma, do que as regras de um jogo jogado há duas semanas atrás!
Essa fraca memória e o cansaço natural numa sexta-feita-sábado hão-de justificar as minhas dificuldades com os pormenores, com aquelas excepções que sempre teremos de aclarar de folheto de regras na mão. Mas como se explica o esquecimento de mecânicas básicas, de passos elementares?
E quando eu sabia o nome da equipa titular do Sporting de hóquei em patins…
Ouço a malta a explicar um jogo e não consigo deixar de pensar que ou o tipo vai jogar aquilo pela enésima vez ou passou duas horas na casa de banho de regras na mão nessa manhã!
Contam-se pelos dedos da mão os jogos que poderei levar à mesa sem ter de perscrutar o caderninho das ditas. Puerto Rico, sem dúvida; Goa e Steam, sim; Agricola, talvez… E mesmo nestes terei de dar uma espreitadela para saber responder à pergunta sacramental: com quanto dinheiro começa cada jogador?
E as anedotas que eu já soube?!
Começa o jogo e eu começo com as perguntas. A malta é simpática e lá vai repetindo até à exaustão um e outro movimento. Mas há uma altura em que não posso demonstrar mais o que não sei. Aí faço o que ainda sei, sai asneira e de amnésia em amnésia chego à esclarecida derrota final.
A verdade é que nunca gostei de jogar à sueca, precisamente por não me apetecer decorar as cartas que saíram, depois de terem entrado.
Discava os números de telefone de todos os meus amigos, agora nem o do telemóvel da minha mulher sei de cor!
E salteado também não me safo. Os meus parceiros apanham umas pelas outras, sabem que a coisa não pode fugir muito do que acontece noutros jogos e, até mesmo sem ler as regras todas, chegam lá.
Jogar é para mim muito mais do que movimentações no tabuleiro, estratégias, golpes de sorte. Detenho-me no momento e o pensamento voa para outros espaços. E soma-se a falta de concentração à falta de memória.
Como eu era imbatível no “stop”! Sabia rios e países como ninguém.
Isto dos jogos de tabuleiro dá uma trabalheira se não queremos fazer má figura! Estivesse a malta virada para um comentáriozito sobre uma novela de há 30 anos atrás ou receptiva a trautear uma cantiguita… Na hora do aperto nem uma anedota me sai e trazer à liça o Sporting, mesmo que de outros tempos e do bilhar do Theriaga, com quatro vermelhos acesos à volta não parece boa ideia. Caramba, que jeito dava a minha mulher ligar numa altura destas!
Que felicidade jogar qualquer coisa com regras assimiladas. E que utopia! Aquela gente está sempre a desembrulhar celofanes e a trazer caixas novas à mesa. Dão uma olhada à porra das instruções e lá sai o premonitor “então isto é assim” que acaba naquela parte do “yada yada” quando eu ainda estou, bastas vezes, na fase do nada, nada!
Tinha mais qualquer coisa para acrescentar mas… não me lembra!

9 comentário(s):

BrainStorm disse...

Muito bom.
O primeiro passo é admitir ;)

Costa disse...

Brilhante!
O meu nome é Luis e sou ludoamnésico...

Mais do que não me lembrar de muitas das regras de muitos dos jogos que habitualmente jogo, não raras vezes não me lembro de pormenores, e até mesmo pormaiores, relacionados com a minha vida profissional e/ou pessoal.
Como se andasse meio trôpego, meio anestesiado.
Deve ser a idade, só pode ser isso.
Admiro aqueles tipos cuja memória me parece um super-poder saído de um qualquer herói da Marvel. O nosso Carlos é disso um exemplo, assustador! Se estivermos a jogar TIGRIS & EUPHRATES, ele no fim sabe exactamente quantos cubinhos de cada côr cada um tem. Sabe sempre os setups de cabeça e as regras, quase sempre, estão lá na ponta da língua. O nosso querido amigo Vasco é outro fenómeno, deve saber de cabeça as regras de mais de 100 jogos... impressionante!
Eu sei alguns. Assim de repente, sem olhar para as regras, podia sentar-me à mesa a jogar um CAYLUS, um STEAM, um SMALL WORLD, um INGENIOUS... e já me começa a falhar a memória, LOL!

Tiago Duarte disse...

Esquecer das regras dos jogos acontece a muito boa gente, e acredito que isso acontece porque todas as semanas há novidades!

P.S. - Isso não acontece ao Carlos porque ele joga sempre o mesmo jogo! :P Como é que o jogo se chama mesmo? Acho que já me esqueci...

BrainStorm disse...

AHHAHA funny... very funny.

Hoje vou jogar outro. Sim, um jogo diferente do habitual. Tu ainda vais cair no mesmo, acredita. prevejo um grande futuro para ti no Twilight Struggle, ou pelo menos nos CDG.

Quando vires a luz... lá estarei para te mostrar o caminho.

vch disse...

Também tenho uma memória fraquissima, excepto para as regras dos jogos. Claro que ajuda quando somos nós proprios a ler as regras, jogamos pelo menos uma vez e depois ainda o relemos (à caça das regras falhadas). Uma grande vantagem de aprender muitos jogos, é que grande parte do jogo não é precisar relembrar, porque tem mecanicas obvias (logicas? normais?).

Em tudo o resto, precisam de me lembrar de tudo, até do que foi dito hà 5 minutos. "Qual é mesmo o teu nome?"

haroldun disse...

Eu sei as regras do Dune, com cábula ao lado, só por precaução ... mas queria dizer mais uma ou duas coisas ...!

soledade disse...

Eu acho que o teu problema é mais de concentração do que de memória.

"Vou falar-vos dum curioso personagem: Jeremias, o fora-da-lei"

Quando nos aproximamos daquela hora do dia em que o cérebro começa a querer desligar, pumba! Lá vêm as regras dos gajos das regras.

"Descendente por linhas travessas do famigerado Zé do Telhado"

Mas o problema nem é saber explicar. É mais saber ouvir.

"Jeremias dedicou-se desde tenra idade ao fabrico da bomba caseira"

Estamos a ouvir uma explicação e, de repente, vêmo-nos a fechar o olho esquerdo, a olhar para o interlocutor e a pensar: ele agora está deste lado. Depois, trocamos de olho e vêmo-lo do outro lado. Depois voltamos ao esquerdo e está no lado anterior, depois vamos ao direito e ele mudou outra vez...

"Cuja eloquência sempre o deixou maravilhado"

E perdemos aquela regra que ganha o jogo. Aquela regra que não te deixa meter 5 blocos em Paris no Liberté ou despachar um cubo vermelho numa cidade vermelha, no Steam.

"Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite"

Mas eu também estou a ficar velho. Já tenho 29 anos vai fazer 5 este ano e isso começa a pesar. Não tanto quanto o sono do meu filho me pesa mas pronto. Enquanto houver uma boa casa de banho para reler umas regras, cá estaremos. E por muito que custe acreditar, com mais repetições que antes. Antes era jogo novo mais jogo novo. Sempre!

"A não ser talvez o rugir apaixonado das mais profundas entranhas da terra"

Muito bom o texto. Muito bom.

"Só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada..."

Unknown disse...

Tem tudo a ver com necessidade...
Se queria saber o número de telefone de casa da Andreia "dos grandes seios" tinha que o decorar e decorava... no meio da discoteca com música em altos berros e com uns copos de avanço...
agora é mais manda-me um toque que isto fica aqui gravado...

Nos jogos também:
- o livro de regras esta ali à mão, o bgg a um click, o Carlos quase sempre...

Agora, também sei de cor umas 100 cantigas de pearl jam... se me perguntares o nome da música não sei... se quiseres que cante - não consigo... mas bastam dois acordes e faz-se click naquela região do cerebro que guarda as coisas mais estúpidas...

Com os jogos o mesmo... nunca me lembro, mas depois do primeiro acorde aquilo é um sing along imediato...

Muito inspirado o texto. Puxando a brasa há minha sardinha:

no hoquei:
José Carlos, Vítor Fortunato, Paulo Almeida, Luís Ferreira e Rui Lopes...

ou no basket:
Carlos Lisboa, Jean Jaques, Mike Plowden, Steve Rocha, Pedro Miguel...

...

Jose Santos disse...

As coisa que eu descubro que vocês sabem!
Aposto que sabes de cor a "cara de anjo mau", Paulo. Já agora, sabias que "de cor" vem de coração? Em tempos localizou-se a memória no coração...
Ah, Nuno, eu também me lembro do Carlos Lisboa, mas de leão ao peito. A Andreia é que não estou a ver...

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