26/02/2007

Here I Stand... uma estrela

Este foi um fim de semana anormal. Anormalmente grande. Ou terá sido anormalmente pequeno. Ainda estou para perceber. É que, mesmo tendo jogado os típicos sexta-feira e sábado, deu-me ideia que o tempo foi diferente. Dois dias com menos jogos que o habitual mas muito mais proveitosos. Pelo menos é assim que o vejo. E tudo porque passámos pelo Here I Stand.
Já tinha havido uma primeira, mais ou menos frustrante, tentativa de jogar o grande jogo das reformas para 3 a 6 jogadores. Para quem não está familiarizado com o jogo, Here I Stand trata dos conflitos do século XVI na Europa, tendo como pano de fundo a Reforma e Contra Reforma. Seis poderes estão representados - Otomanos, Habsburgos, Inglaterra, França, Protestantes e o Papado - e cada jogador controla uma nação.
Primeiro hit - Here I Stand tem a grande vantagem de ser um jogo que, tanto resulta muito bem a seis, com cada jogador a controlar um poder, como jogado a três, em que cada jogador controla dois poderes. Como o quorum de sábado tem sido, habitualmente, de três jogadores, a opção de escolhermos o Here I Stand como coqueluche foi óbvia e acertada. Óbvia, porque não existem assim tantos jogos, com o peso deste, que resultem tão bem e tão equilibrado, com três jogadores. Acertada, porque Here I Stand é um grande jogo. Grande em tudo. Complexidade, rejogabilidade, estratégia, tema, mecânica, regras, tempo de jogo, interacção, enfim, é escolher.
Segundo hit - Nunca tinha jogado um jogo que me tivesse dado tanto gozo desbravar. Reparem naquilo que é, para um comum mortal eurogamer, agarrar pelos cornos um touro daquele tamanho. São 44 Quarenta e quatro 44 páginas de regras. Mas regras regras. Daquelas que estão cheias de informação, tutano e excepções. Estamos a falar de um jogo com uma complexidade tal que deixa o Die Macher numa perspectiva muito favorável enquanto family game.
Agora, verdade seja dita, nunca havia visto regras tão boas. E não estou a falar da forma como estão escritas, estruturadas, exemplificadas. Não. Estou a falar da qualidade das regras, pelas regras. Tudo faz sentido. A confusão que é ler aquele manancial de regras é ultrapassado no momento em que nos apercebemos que estamos a ver uma espécie de filme de guerra em que vemos alguém a tentar entrar numa cidade fortificada. Nessa cidade estão bravos guerreiros que podem refugiar-se dentro das muralhas do castelo e esperar por ajuda. Por vezes ouvem-se as trombetas da cavalaria em som de fundo e o brilho nos olhos de quem se refugiou dentro das muralhas mostra a esperança de quem acha que vai ser resgatado das mãos do mal. Às vezes vai, é verdade. Outras não vai. Alguém morre. Alguém escapa. O cerco à cidade intensifica-se. A cavalaria avança e os salteadores têm de fugir, enfim, um conjunto de situações, extremamente realistas.
Terceiro hit - Quem conhece jogos de sabor histórico, como por exemplo Twilight Struggle, sabe que são jogos feitos com grande detalhe e minúcia. Na minha opinião, embora sofra de algum défice experimental para a sustentar melhor, Here I Stand é "o jogo". Jamais vi um jogo tão complexo e ao mesmo tempo tão perfeito em termos de alinhamento histórico e interligação das várias personagens que fazem parte deste. Todas as nações têm a possibilidade de fazer alianças, declarar guerras com outros poderes, conquistar cidades que lhes dêem pontos vitória.
Mas há também algumas outras características que os poderes têm e podem exercer separadamente, com o objectivo de amealhar melhores condições para vencer. E aqui o rigor histórico é também assustador. Enquanto os reformadores de Lutero fazem as traduções da Bíblia em alemão, inglês e francês, a França de Francis I constroi o seu belo e magnânimo castelo ou a Inglaterra do mulherengo Henry VIII tenta, por meio de vários casamentos, um descendente macho. Imaginem o que é pedir licença ao Papa para se divorciar, casar posteriormente com outra mulher e lançar um dado para ver o que é que nasce! E se nascer macho, Edward VI, temos 6 VP e uma grande ajuda para a reforma em território inglês. Se por acaso não nascer nem o Edward nem a Elisabeth, vamos ter uma Mary I a governar os destinos dos ingleses com uma muito vincada presença católica e, portanto, com quase nenhuma chance de ver o país converter-se ao protestantismo. Claro que, havendo divórcios, a Catarina de Aragão, mulher de Henry VIII volta muito chateada para a sua corte e, não se cansará, daí em diante, de promover guerra entre os Habsburgos e a Inglaterra.
Este sabor histórico é uma das principais características de Here I Stand. É, no fundo, aquilo que torna este jogo tão especial. E não é por não gostarmos do tema (a Reforma) que deixamos de gostar do jogo. Confesso que o tema, ao contrário daquilo que acontece, por exemplo, em Twilight Struggle, não me é particularmete caro. É-me até bastante indiferente. Mas confesso que, se alguma coisa de bom este jogo trouxe, foi um aumento do meu interesse naquela época bem como em tudo aquilo que a envolvia.
Quarto hit - Tenho de falar da interacção. Como qualquer jogo de guerra, Here I Stand tem uma forte componente interactiva. A parte, verdadeiramente deliciosa, desta interacção passa-se na fase de diplomacia. Quase tudo pode ser acordado na fase de diplomacia. Oferta de cartas de um jogador em troca da libertação de um líder, acordar um movimento de tropas de um detereminado sítio para outro, acabar com uma guerra ou fazer um aliado, declarar guerra a uma potência, conceder divórcio, jogar determinado evento em troca de uma compensação qualquer.
E quem não está habituado (como eu) a que haja uma fase deste género, tão sublinhada em termos estratégicos, corre o risco de nunca conseguir ganhar um jogo de Here I Stand. Porque este é um jogo de contrapartidas, de facto. Por exemplo, é muito difícil sobrevivermos aos ataques inimigos ou fazermos os nossos ataques, se não conseguirmos ter connosco os nossos líderes. Provavelmente, a cedência de uma carta da nossa mão a um adversário para ir buscar um líder nosso pode não ser uma má troca. Até podemos estar a beneficiar o nosso adversário, sim, mas esperamos não ter de o fazer no turno seguinte e de uma forma muito mais pesada.
Quinto hit - Numa escala de zero a dez este jogo é um dez. O jogo pelo jogo, tudo aquilo que ele implica, o trabalho que nele está feito, a qualidade das mecânicas, das regras, do tema, de tudo o que o jogo traz.
Na escala do bgg o dez corresponde àquele jogo que se quer jogar sempre e que se pede para jogar sempre. Já cheguei à conclusão que esse jogo não existe mas, ainda assim, se existisse não poderia ser este. Here I Stand é um jogo especialmente pesado e especialmente longo mas especialmente bom. É, acho eu, o jogo mais bem feito que eu conheço. Não deve haver muitas pessoas que achem este jogo mau. Posso até perguntar a todos os que o conhecem - "Então e se o jogo demorasse 3 horas? Era um 10, não era?"
Material: 2.5/3 Interacção: 3/3 Mecânica: 3/3 Tema: 3/3 Estratégia: 3/3 Tempo/Diversão: 2/4 Regras: 1/1
Clasificação: 17.5/20
Paulo Soledade

12 comentário(s):

Anónimo disse...

Ena, com esta é que me deixaste sem palavras!

Go Soledade, go!

P.S. - Quanto demoraram? Quem ganhou? :)

BrainStorm disse...

Jogámos 1 turno em 4 horas :P
(claro que ainda estavamos a explorar).

O jogo é muito bom, mas muito extenso. E depois tem dados... dasss com 13 dados fazer 1 (um) 1 hit... não há jogo que resista.

E depois é a canseira de jogar aquilo... Não leva mais de 15.

Mexia disse...

Eu fiquei para ser sincero no minimo dos minimos mto curioso para poder jogar Here I Stand!
Pela descrição acho que fará as minhas delicias.
Veremos qdo poderei ter essa oportunidade!

soledade disse...

O jogo é uma maravilha de estratégia. Claro que os dados são os dados. Mas não são determinantes. Seria preciso uma noite inteira (literalmente) de azar ou de sorte para se ganhar o jogo com os dados. Portanto, mesmo com essa característica, não vejo nenhum incoveniente em que se rolem 13 dados e se faça 1 hit. Da próxima vez que se rolarem os 13 dados pode até sair 5 hits, o que até é acima da média de probabilidade.

E mesmo assim, os líderes ajudam a lançar mais dados, por exemplo num cerco a uma cidade, mas no fim, o que conta, são as unidades que sobram. E aí, mesmo lançando menos dados, quem atacou, por ter mais unidades, pode muito bem vencer a cidade.

Se eu atacar com 1 líder de "1" e 10 unidades lanço 6 dados. Se alguém defender com 5 unidades e dois líderes de "1" e de "2" lança 9 dados. As probabilidades dizem que eu consigo 2 hits e o defensor conseguirá, na mesma probabilidade, 3 hits. Se retirarmos as baixas eu vou ficar com 1 líder de "1" e 7 unidades. O defensor vai ficar com os dois líderes que tinha (o de "1" e o de "2") mais 3 unidades. Ou seja, o cerco à cidade continua. Alguém tem de os vir resgatar. É só uma questão de tempo!

Depois vem a parte da reforma. E aí as coisas são mais dice dependent. Foi o que me pareceu. Pelo menos no início, enquanto os Protestantes não têm tropas na mesa. É que tentar uma reforma ou contra reforma, ou mesmo um debate teológico num zona linguística qualquer, pode significar uma probabilidade de sucesso ou insucesso idêntica à de um único lançamento de dados. Claro que a quantidade de dados influencia as probabilidades mas é um único lançamento que depois não traz consequências futuras. Ao contrário dos lançamentos militares, na guerra religiosa, não sobram segundas vagas. É como se fosse um jogo da taça. Às vezes ganha o Varzim.

@madeira
Ninguém ganhou porque não terminámos. Eu acho que nunca conseguiríamos jogar o jogo inteiro numa única sessão. Estivemos 4 horas a jogar 1 turno! Mas o 2º iria demorar muito menos, claro, porque já estávamos dentro do esquema. O probema é que estamos a falar de 9 turnos! Agora, tendo em conta os teus gostos acho que este iria ser um bom jogo para ti. :)

@brainstorm
Em relação aos dados tenho dito.
Nota 15 parece-me, claramente, atirar por baixo. Por isso é que tu consegues tão poucos hits! :P

@mexia
Não sei se irás gostar do jogo, caso alguma vez o jogues. Ou melhor, acho que vais gostar muito do jogo, não sei se irás gostar de o jogar. :)
Exige muita concentração e acaba por ser muito cansativo. Agora, que é brilhante, é.

PS. acho que o comentário é maior que o post.

BrainStorm disse...

Paulo, o jogo é brilhante, ninguém discute... mas prefiro o Twilight Struggle. O jogo não é tão denso... mas é mais "prático" se é que me faço entender... e para ti sei que faço.

O jogo, em teoria, tem tudo para ser perfeito, mas na prática:

- É muito denso, talvez até demais. Chega a tornar-se cansativo.
- É muito longo.
- Depende bastante da sorte.

As cartas que te calham podem definir muita coisa. Não é como no TS, onde há sempre qualquer coisa que a carta vai influenciar. Aqui não... aqui 75% das vezes usas os CPs e mais nada. Quando usas o evento é porque faz REALMENTE a diferença, e nem todos têm a sorte das cartas lhe calharem. Provavelmente num jogo inteiro as diferenças esbatem-se... mas pode chegar a ser frustrante não conseguires nada de jeito num turno quando ias bem lançado.

Depois temos dados.. não comento.

Apesar de muito bem pensado, provavelmente bastante fiel, o jogo, segundo me parece tende a favorecer os protestantes, o que até acaba por ser real (provavelmente), pois eles vingaram, como se sabe, mas num jogo isso não me parece muito bem.

Por enquanto, e até terminarmos 1 jogo... a minha nota não se altera. 15.

Hugo Carvalho disse...

Depois dessa inspirada carta de amor ao jogo, fiquei curioso, ainda para mais quando recentemente li as biografias de Elisabeth Tudor, Maria da Escócia e Catarina de Medicis onde muitos dos assuntos que o jogo traz à baila são exaustivamente referenciados.
O único problema parece ser o óbvio. 44 páginas de regras (que exige tempo e dedicação) e ter alguém que esteja disposto a estar um dia inteiro a jogar àquilo.

soledade disse...

@brainstorm
Não concordo contigo quando dizes que as cartas têm uma GRANDE vantagem para quem as joga se não não se jogam. Algumas até são obrigatórias mesmo que não te agradem.

Claro que teres uma mão boa pode significar uma vantagem importante, mas voltando ao T Struggle, chegámos (ambos) à conclusão que determinados ciclos de cartas numa ou noutra mão significam perder ou ganhar o jogo. E isso pode acontecer ao fim de um turno ou dois! O Twilight Struggle é óptimo, claro, mas o objectivo é outro.

Em Here I Stand (minha opinião) não há essa sorte toda. Mesmo que lhes queiras pôr as cartas e os dados.

Em relação à classificação, vale o que vale. O jogo pelo jogo vale 20. Para ti vale 15. Para mim vale 17,5. Provavelmente para o Madeira ou para o Pombeiro (se tivermos a falar de tempo de jogo) vale 21. Estou a falar de sorte e, aí, discordo contigo.

@hugo
Tens razão em chamar-lhe carta de amor. Porque não é uma crítica. Gosto tanto do jogo como jogo que não consigo falar mal dele. Mea culpa.

Agora, é óbvio que não é um jogo simplesmente jogável, e eu tenho tanta pena disso!

Muitos jogadores acham o Age of Steam ou o Die MAcher demasiado longos ou pesados ou ambos. E eles continuam a ser excelentes jogos. Muitos jogadores acham o Puerto Rico muito complexo. Demasiados acham o Monopólio ou o Risco bons jogos.

A questão é saber se aquilo que fazes no jogo merece o tempo que nele dispendes. Ao contrário do Monopólio, por exemplo, este merece. O Problema para mim, e para o comum eurogamer mortal, é que o tempo que ele merece é equivalente a 2 Die Macher. E isso é incontornável.

Escrevi esta carta de amor para falar também um pouco sobre isso. O problema são os jogos ou seremos nós?! E então vem a velhinha classificação do BGG. Estou a classificar o jogo pelo jogo ou o jogo para mim, pessoalmente. Se fôr para mim é um 17,5, se fôr pelo jogo, no reino dos jogos :), seria um 20. Ou então um 19. Vale o que vale.

Unknown disse...

Difícil dizer o que penso do jogo...
Apesar de tudo acho que a minha situação inicial (Protestantes e ingleses) é muito passiva...
É naquela: vou tentar converter toda a gente com o mr Lutero e empranhar gajas com o garanhão inglês...
E, enquanto isso, num jogo muito distante, o mundo anda todo à tareia e a aniquilar os vizinhos uns dos outros...

Não deixa de ser engraçado que não me possa queixar dos dados... mas queixo-me de outra coisa, da passividade, da interacção inicial da posição estratégica destas nações.

Enquanto isso o jogo gera discussões, conflitos, irritação, dor de cabeça... mas de tal forma coerentes e historicamente perfeitas que não deixa de ser brilhante percebe-las: o isolamento inglês (para o bem e para o mal), o impulso inicial da reforma, a fraca reacção inicial da Igreja Católica, os posicionamentos estratégicos, o poderio militar, as formas de pontuação, os pontos extra, as cartas (os eventos)... Simplesmente delicioso...

Mas um jogo que provoca tantas e longas reacções merece no mínimo esta constatação:

-nunca será consensual
-nas diferentes alturas e mecanismos do jogo alguém se sentirá sempre injustiçado
-é perfeito historicamente

Eu gostei, muito... para já um oito (8-10)

Azulantas disse...

Here I stand wishing I had the time to play Here I Stand.

Na teoria parece-me extraordinário, e a julgar pela bitola da GMT que eu tenho (Twilight Struggle) tenho a certeza absoluta que não falha.

Agora, um jogo para 6 horas não é para todos, nem para todos os dias.

Quem me dera ter esse tipo de disponibilidade. Quem sabe talvez nas férias...

zorg disse...

Este é um de dois jogos que eu tenho seguido com alguma curiosidade e me parecem interessantíssimos, mas tenho sempre optado por não comprar por causa da duração (o outro é o Pax Romana).

Objectivamente, e depois desta vossa experiência, quanto tempo acham que demora um jogo completo? 10 horas? 8 horas? 16 horas, como já vi no BGG?

soledade disse...

@zorg

Objectivamente é complicado.
Diria que não dura menos de 8 horas. A não ser que haja uma vitória por morte súbita. E não conheço o jogo suficientemente bem para conseguir prever se é ou não simples (relativamente) isto acontecer. Agora, com jogadores experimentados diria 8 horas.

No cenário mais avançado, 1532, diria que não dura mais de 5 horas. Nós nunca jogámos assim mas parece-me que dado o avanço do timeline não deve demorar mais que isso.

Agora, eu aconselho o jogo? Só se estiveres disposto a perder muito tempo com ele e também na circunstância de procurares um jogo que resulte bem a 3, que era também isso que eu procurava (ou a 6).

Eu achei-o extremamente desafiante e estimulante - acho até que mais que os meus parceiros de jogo porque fui eu que li as regras - e acho que ainda bem que o tenho.

Costa disse...

Porque não quero morrer estupido tenho que experimentar esse HiS, mas deixo já aqui um aviso à navegação: não creio que seja o meu estilo de jogo.

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