09/09/2007

Os jogos das minhas férias

As férias têm, pelo menos devem ter, uma vantagem: escapar das rotinas. Até voltarmos das férias, todos nós devíamos conseguir libertar-nos daqueles hábitos do dia-a-dia que nos levam a ser iguais em todos os outros dias do ano.

Voltado das minhas, faço agora uma espécie de resumo daquilo que elas foram, nomeadamente, em relação aos jogos que não joguei. Porque também eu tentei ausentar-me da rotina e isso, imperativamente, significa ausentar-me dos jogos. Três semanas de ausência!

Premissa

O pessoal que não joga, ou não priva com quem joga, jogos de tabuleiro, não faz ideia do trabalho que dá jogá-los. É um trabalho que dá prazer, claro, mas ao mesmo tempo é trabalho. E é trabalho porque temos de ler regras, perceber os jogos, na maior parte das vezes, saber explicá-los. É, obviamente, uma coisa que eu gosto muito de fazer mas, dá trabalho. Ninguém pode desmentir esta afirmação. Ora, dando trabalho, pelo menos nas férias, evita-se. Foi o que eu tentei…

Dia 0 – Sair de casa

Depois de já ter interiormente concordado em não levar jogos, descuidei-me à saída e peguei nuns quantos que por lá estavam próximos, agarrados a um saco de asas da ZARA. Claro que os sacos da ZARA, quando cruzados com estrogénio, fazem um barulho estranho parecido com um zunir agudo só alcançável pelo Spiderman e as mulheres. A minha, não sendo excepção, lá atirou uma pergunta despretensiosa: “então, sempre vais levar jogos?!” Corei o suficiente, claro, e, com uma cara que mais parecia a de alguém que tinha atirado o mindinho do pé esquerdo contra a perna da cama, desfiz um sorriso estúpido para explicar “são só estes 4, caso surja a oportunidade de jogar com o teu irmão…”

Na lista de jogos “ZARA” constavam o Battleline, o Roma, o Saint Petersburg e o San Juan. Tudo jogos jogáveis a dois, leves, curtos, ideais para as férias, caso elas não surgissem, de facto. Para além disso traziam o tamanho ideal para poderem, com elegância, partilhar o tal saco.

Dia 0/1 – Férias sim, férias não

Chegado ao destino, pousei o saco, com muito carinho, junto à mesa da sala de jantar. Depois de arrumar a tralha toda que vinha acoplada a uma viagem de 3 semanas feita por 4 adultos e uma criança na fase Kim Possible, sentei-me no sofá das férias. Mas o sofá das férias está numa sala pequena e, demasiado facilmente, se consegue ler “ZARA” dali. Eu lutei pelas minhas férias, eu juro. Naquele primeiro dia até quase nem reparei nas letras Z.A.R.A. Quase.

Dia 2 – Férias não

Foi ao segundo dia que senti um arrepio a percorrer-me a espinha quando passei pelo saco encostado à mesa de jantar. Mas fui bravo. Fui bravo durante uns quinze minutos. Depois, bem depois, foi só soltar aquela pergunta ligeira do “Queres jogar um Battleline?”. “Sim, boa”. E lá fomos nós trabalhar. Uma hora e um par de jogos depois apercebi-me que aquilo não poderia continuar ali. Tinha de tirar de lá o saco da ZARA ou então as minhas férias não iam começar. Foi o que fiz. Vesti a minha capa e empunhei a minha espada e encostei o saco a uma parede invisível mas através da qual não se conseguia ler uma única letra de A a Z.

E as férias começaram nessa noite com uns cajus empurrados por uma Carlsberg.

Dias 3 a 7 – Fnac

As férias prolongaram-se até ter tido uma primeira miragem. Foi ao sétimo dia, estava voltado para Marrocos, na Fnac algarvia, e percorria os corredores à procura do último (último, primeiro, único?) livro de cervejas publicado em Portugal (99 cervejas + 1 – Francisco José Viegas), quando li uma palavra familiar: “Wonder”. Dei dois passos em frente e consegui ler “Days of Wonder”. Ai senhor Jesus! Então e agora?! Até a Fnac se voltou contra mim?! Uma coisa é a ZARA estar em território inimigo a denunciar as minhas intenções, outra coisa é a Fnac, aka. “maior invenção de utilidade para o homem (com letra pequena) depois da Internet” tentar estragar as minhas férias boardgame free. Pois é a mais pura verdade. Consigo dizer, exactamente, todos os títulos que lá vi à venda. Axis & Allies – Battle of the Bulge, Tide of Iron, Age of Empires III e o tal Days of Wonder, Colosseum.

Respirei fundo e ignorei as caixas que tinha acabado de ver. Fui embora transtornado.

O caju, os amendoins e a cerveja – Super Bock, Carlsberg e Sagres Bohemia – foram-me fazendo companhia na angústia destes 7 dias.

Dias 7 a 18 – Férias, férias e Glasgow

Com a minha boa vontade de resolver as minhas questões sentimentais ligadas aos jogos, consegui esquecer-me do saco da ZARA. Muito vagamente olhava para os jogos, lá dentro, arrumados, e às vezes quase que me saía um som gutural, um grunhido abafado, como que a pedir ajuda para não dizer nada que quisesse dizer. Namorei os jogos durante mais de 10 dias. Depois, fiz férias dentro das férias e fui beber cerveja com 10 graus. Celcius. Viva a Escócia e viva os pints. Esquecia os meus jogos no algarve com a ajuda dos cajus e dos amendoins regados a pints de laggers fortes que, entretanto, fui bebendo.

No 18º dia, entrei numa loja e intervalei as férias. Admito. Gastei 16£ e comprei dois jogos. Space Dealer e New England. Meus amigos, não se deixem enganar pelos preços. São estupidamente mais altos que no resto da Europa mas, havendo mercado, também há saldos e também há jogos em segunda mão. Entrei, provavelmente, na única loja decente de Glasgow, mas deu para namorar mais um bocadinho. E mais uns cajus e mais uns pints.

Dia 20 – Regresso

De volta ao trabalho depois de 20 dias com dois Battleline. Como a vida é justa para alguns de nós.

Para o ano que vem quero não jogar mais tempo. Mas intervalado com uns namoricos a uns jogos, umas escapadelas de rotina e uns snacks de caju, amendoins e pints. Uma frase fantástica de uma série fantástica dizia: “I love dating. It comes with snacks”. Porque os namorados levam o café, levam chocolates, levam coisas.

Foi o que eu fiz nas minhas férias. Namorei os meus jogos, abusei dos snacks e trouxe o caminho livre para mais um ano de cubos e tiles e tokens e meeples e regras e regras e regras.

4 comentário(s):

Unknown disse...

Muito bom...
Estilo livre...
Até parece que estou a ver o tal saco...

Para quando a análise ao binómio cerveja-jogos ?
E uma comparação entre PlayStation e board games? assim estilo:
Como fico pior que "#$$## a jogar PES...
Bem sei que como qualquer Adriano que se preze, me vais mandar a mim fazer essas análises... mas basta uma vez para perceber que não se pode contar com um Super-Irritante...

Costa disse...

Nice!

Eu também sofri durante as tuas férias :P

Chirol disse...

Entendo você perfeitamente...

Outro dia minha mulher flagrou três jogos na minha mochila antes de um evento familiar e e perguntou onde eu ia com aquilo (eram apenas o Hive, Diabolo e Schotten Totten).

O seu maior pecado foi a sacola da Zara. É impossível um homem passar desapercebido por uma mulher com uma sacola dessas... se fosse ainda uma sacola de supermercado barato você teria alguma chance.

abraços!

:)

Hugo Carvalho disse...

Eu nem consigo imaginar umas férias sem jogos...

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