A teoria da Mão Invisível, uma teoria delineada por Adam Smith, pai da Economia Moderna, afirma que os consumidores, se lhes for dada total liberdade de consumo, irão ser guiados, como que por uma mão invisível, a fazer o que é melhor para o mercado.
Ou seja, as acções dos consumidores irão fazer com que o mercado se regule para o ponto de equilíbrio mais benéfico tanto para o mercado como para as empresas como para os consumidores. As acções dos consumidores e das empresas irão regular o mercado de tal maneira que todos fiquem a ganhar. Os preços baixarão, as empresas produzirão produtos com mais qualidade. Adam Smith teorizou que todos os consumidores são afectados por isto.
Por outras palavras menos simpáticas, a ganância das pessoas faz com que os mercados estabeleçam preços melhores para todos, pois os consumidores estão a encorajar as empresas a produzir de maneira mais eficiente e eficaz. Somos guiados como que uma mão invisível a melhorar as condições do mercado.
Claro, a teoria é mais do que isto, e esta teoria clássica tem muitos críticos, mas eu como estudante de Economia vejo umas luzes de verdade nesta teoria. Mas não estamos aqui para discutir teoria clássica de economia, estamos aqui para discutir boardgames. Então o que esta teoria têm a haver com boardgames?
Vou aplicar esta teoria ao mundo de boardgames, especificamente a qualquer grupo de boardgamers.
Num grupo de boardgamers, qualquer que seja a constituição, número e tipo de jogadores desse grupo, os jogadores são guiados, como que por uma mão invisível, a jogarem o seu melhor. Porque digo isso? Simples, quando um jogador começa a jogar mal, seja por qualquer razão, irá prejudicar o grupo como um todo. O jogo será mal jogado e perderá muito do seu divertimento, como acontece quando um ou mais elementos de um grupo joga mal. Logo, todos os jogadores têm que jogar bem para beneficio do grupo e, mais importante, para beneficio próprio. Pois desta maneira os jogadores, ao se divertirem jogando, tornam o jogo divertido também para todo o restante grupo. Toda a gente sabe que um mau jogador pode estragar uma sessão de boardgaming, logo todos tentam evitar jogar mal de maneira a divertirem-se bastante e, por seguimento, o grupo divertir-se também. Assim, o "egoísmo" e "ganância" de um jogador a querer se divertir faz com que o grupo como um todo também se divirta. É a teoria na sua aplicação prática. Guiado pelo desejo "egoísta" de se divertir, jogando bem, um jogador acaba por contribuir para a diversão colectiva do grupo.
E o que se define por jogar bem? Para mim jogar bem é simplesmente jogar para ganhar, seguindo as regras do jogo e nunca fazendo batota. Jogar para beneficiar ou prejudicar outro jogador num jogo que não seja respectivamente competitivo ou cooperativo, jogar sem estratégia porque se se está aborrecido, jogar para prejudicar um jogador porque não se gosta desse jogar, são exemplos de jogar mal.
E quanto à definição do que torna um boardgame divertido ou não? Simples, seu nível de competição. Com isto eu quero dizer que o nível de competição de um boardgame é o nível que faz com que os jogadores apliquem o máximo número de tácticas e/ou estratégias num jogo. Sendo assim, quando um jogar joga de forma competitiva, ele estará a aumentar o nível de competição do boardgame e, por consequência, traz o desafio de obrigar os outros jogadores a usarem também o máximo de estratégia e/ou tácticas de forma a contrariar os planos do jogador original. Desta forma, e se tudo correr bem, cria-se um ciclo vicioso em que todos os jogadores tentam ser mais competitivos que os outros de forma a ganharem, e sendo assim, trazem ao de cima toda a potencialidade do boardgame, o que provoca divertimento.
Mas isto vai além de beneficio próprio. Usando a teoria da Mão Invisível num grupo, diria que o grupo, guiado por essa mão, acaba também por fazer uma selecção de boardgames que querem, ou não, jogar. Acabam por escolher e jogar os boardgame que acharam mais divertidos e pôr de parte os boardgames que não acharam divertidos. Logo, esta teoria também serve como uma maneira de um grupo filtrar os boardgames que gostam ou não, elegendo jogar os boardgames que acha mais divertido, e por consequência ganhando mais divertimento quando jogarem os boardgames que gostam.
O importante aqui é ver como as acções de um indivíduo afectam e moldam as acções de um grupo inteiro. Se um indivíduo faz algo, é natural que o grupo sinta as consequências dessa acção. Por conseguinte, jogar bem induz uma boa atmosfera no grupo inteiro. Logo, jogar bem é fundamental para o grupo se divertir. Com isto em mente, o grupo todo agirá de maneira a divertir-se ao máximo e a castigar comportamentos erróneos, como jogar mal.
Desta forma, toda a gente contribui de maneira positiva para o grupo, fazendo com que o grupo contribua de maneira positiva para todos os indivíduos. Por exemplo, em Diplomacy, jogar mal seria fazer alianças e não as quebrar num momento em que o jogador sairia a ganhar com tal "traição", prejudicando assim a ele próprio com medo de que a "traição" pudesse trazer algum mal às relações pessoais com os outros jogadores. Se o jogador quebrar a aliança, irá em primeiro lugar estar a jogar bem e, depois, irá aumentar o nível de competição do jogo, o que fará com que os outros jogadores tenham que jogar bem para contrariar as acções do primeiro jogador.
Mas claro, esta teoria no mundo económico tem muitas criticas, e aqui também tem. Por exemplo, há grupos que acabam por não se divertir, sessão atrás de sessão, devido as acções de jogo de um ou mais jogadores. Isto parece um bom exemplo que confirma a excepção à regra. Mas eu diria que até aqui a teoria funciona bem, pois mais cedo ou mais tarde o grupo irá decidir tomar medidas contra os indivíduos que jogam mal. Assim, o grupo irá ser impulsionado para resolver o problema pois o grupo procura atingir o objectivo principal de qualquer grupo de boardgamers, divertir-se.
De uma maneira ou de outra, acho que todos os grupos de boardgamers estão sujeitos à Teoria da Mão Invisível. Os indivíduos querem se divertir, e ao jogarem bem, fazem com que o grupo se divirta também. Tenham isto em conta quando forem jogar um boardgame. Joguem o melhor possível e, ao fazerem isso, irão se divertir e causar com que o grupo também aprecie jogar boardgames.



17 comentário(s):
"E quanto à definição do que torna um boardgame divertido ou não? Simples, seu nível de competição."
Epá... foi mesmo aí que me perdeste... tava a correr bem... mas isso da competição...
Exemplos:
Achei o Robo Rally engraçadissimo... muito divertido, mas não houve ninguém a tentar ganhar...
O kremlin é outro exemplo... di vertes-te só por jogar, pela mecânica, pela temática... pela conversa, pelas bocas, pela cerveja, pelo assassinato e traição...
No nosso último jogo de Liberté joguei ao mata o parasita... não ganhei (nem tentei muito)... mas diverti-me...
E tantos mais exemplos...
Bem vindo ao lado negro do blog...
Hehehehe.
Bem, eu acho que um boardgame é sempre divertido, sem dúvida nenhuma, mas a competição num boardgame é, acho eu, seu estado natural. Os boardgames foram designed para haver competição entre os jogadores, para serem jogados da maneira que as regras explicitam.
Claro que não é obrigatório haver competição para se divertirem, claro, mas como nas teorias económicas, eu usei a teoria Ceteris Paribus, onde todas as variáveis menos uma são feitas constantes.
Ou seja, estou a avaliar os boardgames através de teoria económica hehehe.
Mas sim, sem dúvida, um jogador pode-se divertir bastante sem ser a competir, eu simplesmente pus a variável de competição numa constante, ou seja jogar a competir como default dos boardgames, de maneira a redigir esta teoria.
E os lados negros são sempre os mais interessantes hehehehe.
Meu caro MGBM, antes de mais bem vindo ao SpielPT. É sem dúvida um prazer poder ler os teus artigos neste nosso cantinho.
Quanto à Teoria da Mão Invisível, penso que definiste um paralelismo muito interessante. Também acho que essa mãozinha existe e que ela é fundamental. Tenho que estar mais atenta a ela, prque normalmente até sou eu o gajo que estraga a competitividade das nossas jogatanas. Não porque joque mal, mas porque jogo sozinho. O Paulo, O Carlos e o Nuno jogam para ganhar a todo o custo. Eu também jogo para ganhar, mas tento sempre não estragar o jogo aos outros. E isso estraga muitas das nossas sessões.
Prometo ser mais cão a jogar. Prometo que vou deixar a mão invisível pautar a minha estratégia. Meus caros amigos e parceiros de jogo, tenham cuidado... muito cuidado... vem aí o meus lado negro...! MUAHHHHHH!!!
Quanto a mim um jogo fica estragado quando no final a sensação é que fomos "humilhados". Jogar com pessoas "obcecadas" por ganhar, que passam o tempo todo nervosos e agitados para alcançar o momento do ataque final é bastante desinteressante e dá um péssimo ambiente à jogatina. Eu confesso que adoro ganhar mas não me "esfarelo" para o conseguir.
A atitude é tudo... e os boardgames são para mim um constante exercício de "auto-controlo" emocional. Quem já jogou ténis percebe claramente aquilo de que estou a falar!
A competição só é positiva quando todos retiram dela coisas boas, mas creio que raramente a competição trás coisas muito boas... talvez só boas... muitas vezes trás coisas más, sobretudo omissas no pensamento!
A teoria é interessante. No nosso grupo não há ninguém que tente ganhar a qualquer custo e, também não acredito, que jogue propositadamente tão mal para perder.
Perder é sem querer, ganhar é propositado. E nisto há uma constante. A atitude. O domínio pessoal na procura do melhor. Daí estar de acordo com o Abruk (também já joguei ténis algumas vezes).
Recorrer ao mecanismo da competição pela competição não tem nada a ver com boardgames. É anti-natural. Eles não foram feitos para isso porque resultam de uma espécie de interacção solicitada. Ninguém deve jogar boardgames se não procura esse tipo de interacção. Deve, antes, dedicar-se a coisas masturbatórias como AoE no PC. E aí não depende do adversário, não se chateia com ele mas também não entorna cerveja a brindar.
Como resultado desta análise devo ainda dizer que há jogos que não resultam, em nada ou quase nada, das jogadas uns dos outros e que, portanto, podem estar inquinados desde o início. Obviamente, nenhum jogo tem total inexistência de interacção. Mas existem alguns que andam próximos disso. E esses, jogando bem ou mal, melhor ou pior, não terão assim tanto de mão invisível.
Agora, nunca tinha pensado nisto a sério mas acho que a mãozinha está lá. E todos a tentam segurar. Uns são mais óbvios que outros mas todos a tentam segurar. Isso eu sei.
MGBM, bem-vindo ao lado negro do blog. O cantinho do MGBM cá estará, daqui em diante, para o que der e vier.
@costa: Um pouco mais de competição para aumentar o divertimento do grupo sempre é fixe. Mas o equilibrio do grupo é encontrado e mantido pela maneira como os jogtadores jogam. Ou seja, o jogador modifica o comportamento do grupo e depois o grupo modifica o comportamento do jogador. Isto vai acontecendo até chegarem a um ponto de equilibrio, e quando ai chegarem a esse ponto então o grupo estará a usufruir do divertimento ao máximo possivel nas circunstancias.
Por outras palvras, se te divertes e o grupo também se diverte, continua que vais bem. :D
@abruk: Concordo plenamente. Um dos apsectos da minha teoria é que a competição existe, mas é uma competição saudável, em que os jogadores tentam ganhar mas sem lixar os outros de maneira a "humilhá-los". Quando se fica obcecado por ganhar a todo o custo isso para mim é tão mau como fazer batota e quebrar as regras propositadamente.
@soledade: Sim, os jogos solitaire presumo que serão uma excepção a esta teoria, mas vê bem, se jogas solitaire e segues as regras do jogo, então tu és o próprio grupo. Logo, se jogares bem estarás a contribuir para o divertimento do grupo, ou seja, tu. Mas com os solitaire esta teoria é mais complicada. Notre Dame, que é quase um solitaire, quase que sofre disso. Mas mesmo assim, quando jogado com um grupo, mesmo em solitaire, se jogas bem os outros jogadores ficarão inspirados para jogarem bem também. Porquê? Porque se jogas bem então tens mais chances de ganhar, os outros jogadores vêm isso e pensam, tenho que jogar bem também para ganhar.
Para mim o grande prazer dos Boardgames é a possibilidade de nos sentarmos com a malta amiga e passar um serão ou whatever agradavél.
Sim ganhar é giro mas perder não é nenhum tormento. E salvo raras excepções numa mesa de 4 ou 5 jogadores apenas um será vencedor.
No meu grupo creio que o convivio está acima de tudo sendo obvio que todos tentam ganhar mas ninguém sai a chorar, (tirando o Vital), quando não ganha.
Concordo contigo. De salientar que a minha teoria não trata de ganhar, mas antes de jogar bem, jogar parra ganhar. Ganhar ou perder é irrelevante se, no processo, divertiste-te, e isso é que é o importante. Ganhar ou perder são só uma consequência de jogar, divertir-se não está relacionado com ganhar, divertir-se está relacionado com o acto de conviver e jogar.
Logo, toda a gente deve jogar muitos boardgames todos os dias. :D
É obvio para todos (bem, pelo menos assim penso) que um boardgame trata apenas de diversão e convivio. Mas para que exista diversão, terá sempre de haver alguma competição de maneira a tornar o jogo agradável e para que os jogadores se sintam bem, afinal o objectivo de qq jogo é ganhar. Se os jogadores não se esforçarem para isso o jogo perde toda a piada.
Pelo que percebi esta teoria também se pode adequar ao comportamento habitual dos elementos do gruupo. Ou seja, como o bruno disse eu choro-me sempre no final do jogo se não o ganhar, mas se por alguma razão tal não acontecer, o meu grupo estranha e acha que eu não me esforcei o suficiente, tirando a piada à sessão que passou.
O importante para mim é jogar e divertir-me. E o choradinho no final do jogo é sinal que a coisa até foi divertida. À medida que os jogadores se vão conhecendo rapidamente nos apercebemos pelo seu comportamento se a sessão foi ou não divertida.
Parabéns nbs, Uma adaptação criativa de uma teoria económica aos boardgames e ao comportamento de quem os joga. Artigo muito engraçado.
#newrev
O texto não é meu... é do MGBM... novo colonista do blog...
Eu sou o gajo que não escreve... só critica e trata da manutenção e "faxina" do blog...
@newrev
Obrigado! :D
Sim, segundo a teoria, qualquer comportamento que leve a divertimento ou a corrigir o grupo de maneira a levar a divertimento é uma maneira da mão invisivel actuar.
Hei João Marum
Desculpa o lapso, pensei que o nbs finalmente tivesse escrito aqui qq coisinha, eheh daí as boas vindas do costa.
Desculpa lá o erro. :) bom artigo mais uma vez.
:D
Não faz mal! :D
Obrigado!
Finalmente tive tempo para ler esta teoria.. o chefe é capaz de não ter gostado, mas.
Quanto à mão invisível.. é mesmo verdade. No passado sábado senti-a, mas um tratamento aos calos não lhe fazia mal... estava um pouco áspera. Já agora, um corte de unhas também não lhe fazia mal nenhum.
Um pouco mais a sério. Acho que não há ninguém que parta para um jogo com a ideia de ... hoje não vou tentar ganhar. Eu confesso que tento ganhar todos os jogos, mas nem sempre é possível. Claro que vou chorando muito durante o decorrer dos jogos. tem que ser. O processo de auto-flagelação e vitimização acaba por colher sempre os seus frutos. Claro que me irrito com os dados, ou qualquer factor incontrolável do jogo. Mas, no final no pasa nada. Essa é a ideia do jogo.
Por vezes até é bom haver alguém que jogue mal, para conseguirmos perceber todos os mecanismos do jogo, novas oportunidades, etc.
A ideia de auto-regulação é engraçada, mas acho que está errada logo ao principio. Num grupo todos temos os nossos gostos e nem sempre é possível haver uma selecção de jogos que agradem a gregos e troianos ao mesmo tempo. Todos temos que jogar algum jogo que gostamos menos. No nosso grupo acho que existem poucos exemplos de jogos que só um goste.. talvez 1-2 jogos. Ou gostamos todos (uns mais que outros), ou ninguém gosta.
O que eu gosto mesmo num jogo é que quando este acaba, independentemente do seu resultado no final este gera uma discussão de 1 ou mais horas na varanda. Esse sim é sinal de um bom jogo. Esse é claramente o sinal de que estivemos a jogar Liberté... o resto são teorias :P
Amigo Carlos, o choradinho e a vitimização, agarrados a um certo grau de parasitagem, são resultado da mão invisível. É tudo para tentar jogar melhor e ganhar.
Agora, jogo que é jogo, tem de passar pela varanda, pelo menos, uma hora!
Estive a pensar e temos um problema...
"Kremlina-mos"... não fica bem :P
O engraçado disto é que, mesmo que só um jogador goste de um certo jogo, isso continua a ser a mão invisivel em funcionamento. O que acontecerá será uma de duas coisas: Ou o jogador convence o grupo a jogar mais vezes ao jogo que gosta e o grupo apercebe-se que o jogo até nem é assim tão mau e passam a jogar mais ao jogo, levando assim ao divertimento, ou o grupo rejeita o jogo claramente, o que levará o grupo a jogar jogos que todos gostem, levando mais uma vez ao divertimento.
Claro que o mal é se o jogador que só gosta desse jogo ficar chateado pela rejeição do jogo pelo grupo e decidir começar a jogar mal em retaliação ou simplesmente por tar chateado e não conseguir pensar bem. Neste caso o grupo toma medidas regularizadoras, que podem ir até à expulsão do jogador, e no fim o grupo, como um todo, irá acabar por atingir um ponto alto de divertimento à mesma.
Enviar um comentário