As pessoas são engraçadas, e psicologia mais engraçado ainda. Saber como funciona o comportamento humano deve ser fascinante, e eu, embora seja um cientista social, não sou um psicólogo. De facto a minha área é mais sociologia que psicologia, mas mesmo assim quero-vos apresentar uma situação que poderá ser verdadeira ou não. Poderá estar errada do ponto de vista psicológico, mas do ponto de vista sociológico contém uns grãos de verdade.
Quando alguém gosta de nós, o que devemos fazer para preservar, ou até mesmo aumentar, tal sentimento dessa pessoa? A reacção mais comum é passar mais tempo com essa pessoa, falar mais com ela, estar mais com ela. E é aqui que entra um interessante paradoxo das relações humanas. Quanto mais tempo passarmos com uma pessoa, mais farta essa pessoa ficará de nós, por mais que nós gostemos dessa pessoa. Porquê? Porque essa pessoa se acostumou a nós, ficou habituada a nós e o que achava de interessante ou até mesmo atraente em nós deixa de achar, porque passamos tanto tempo com essa pessoa que para ela todas as nossas qualidades se diluem. Como os Americanos dizem, they take us for granted. Essa pessoa começa a pensar que somos chatos por estar sempre a passar tempo com ela. Logo, como solucionar esta situação? Bem, eu proponho que a melhor maneira de manter ou aumentar a amizade entre alguém que gosta de nós é, passar menos tempo com ela. Dito assim parece uma afirmação insensível e dura, mas pensem bem. Se não nos impormos a essa pessoa, se passarmos pouco tempo com ela e que o tempo passado seja importante, essa pessoa não se habituará a nós, não verá as nossas qualidades como aborrecidas, monótonas, comuns. Ver-nos como a primeira impressão, uma pessoa interessante com boas qualidades, não diluída pelo tempo passado em demasia com a pessoa. Logo, uma relação mantêm-se muito bem se não nos impormos à outra pessoa, se formos moderados no tempo passado com ela, se mantermos a nossa imagem de pessoa interessante. Não nos tornamos chatos. Resumindo, se queremos manter uma relação, não nos podemos tornar chatos.
E com boardgames é o mesmo. Um bom boardgame com quem temos uma boa relação deve ser jogado o menos possível. Porquê? Porque senão vamos achar o boardgame chato mais cedo ou mais tarde. O que se passa com as pessoas passa-se também com os boardgames. Temos que moderar o uso de um boardgame para o bem dele, para que ele seja sempre interessante de se jogar.
Um boardgame, principalmente aqueles em que temos elevadas expectativas, tem uma linha de vida própria. A princípio jogamos e gostamos bastante do boardgame, mas à medida que jogamos mais vamos perdendo o interesse com o boardgame, pois começamos a nos habituar a ele. Começamos a ver mais estratégias, a definir mais planos de jogo, começamos a revelar todas as manhas do boardgame. Por outras palavras, o boardgame começa a ficar chato, aborrecido, mais previsível, sem tantas qualidades. Isto é verdade para todos os boardgames, num grau maior ou menor. A verdade é que quanto mais jogamos um boardgame, invariavelmente menos interesse ele terá aos nossos olhos a partir de um certo ponto. E este talvez seja o grande mal dos boardgames e o cálice sagrado de boardgame designing, criar um boardgame tão bom que mantenha o interesse inicial para sempre. Duvido que alguma vez tal boardgame seja criado, mas tudo é possível.
O importante aqui é reparar que quanto mais jogamos menos interesse temos. O que fazer para solucionar? A minha solução a tal problema é ter mais autocontrole e não jogar tanto o mesmo boardgame. Dar-lhe espaço e tempo para que a sua impressão inicial, o seu relacionamento bom conosco, não se desvaneça no tempo. O importante aqui é jogar só até ao ponto em que a nossa relação com o boardgame melhorou. Quando começarem a sentir que a relação piora, parem de jogar e joguem a outro boardgame qualquer.
De facto, a melhor solução para isto é haver uma maior rotação de boardgames jogados no grupo. Joguem mais boardgames diferentes, mas nunca joguem os boardgames por muitas sessões de seguida.
É necessário criar e manter tais relações com os boardgames, pois se começarmos a achar as nossas colecções aborrecidas, então estamos tramados pois os boardgames que acharem aborrecidos serão boardgames que irão ser poucas vezes jogados, limitando assim a escolha dos boardgames a serem jogados numa dada sessão. E isto é um ponto importante a salientar, a limitação dos boardgames que são escolhidos devido ao aborrecimento que se tem deles. É essencial mantermos boas relações com a maioria dos nossos boardgames, de maneira a que quando chega o dia da sessão tenhamos um maior leque de escolhas de entre as nossas colecções. É óbvio que ninguém quererá jogar a um boardgame que considerem aborrecido, portanto manter um boardgame interessante é fundamental para a boa saúde de um grupo de jogadores.
Claro que é mais fácil haver uma maior rotação de boardgames num grupo que possua uma colecção de boardgames de elevado número. O mal é quando o grupo tem poucos boardgames, e nesse caso pode-se entrar num ciclo vicioso. Os jogadores jogam muito ao mesmo boardgame, o boardgame perde as qualidades que o atraiam ao grupo, o grupo não tem mais por onde escolher e continua a jogar ao mesmo boardgame, tornando assim o boardgame ainda mais aborrecido. Em casos extremos o que poderá acontecer é que o grupo fique absolutamente farto do boardgame e não o jogue mais a partir do momento em que comprem outros boardgames diferentes. Neste caso a solução prática, mas que financeiramente é menos prática, é comprar o máximo de boardgames possível de maneira a que exista uma boa rotação de boardgames no grupo.
Mas não é só o interesse que o boardgame tem em nós que importa, é também o nosso interesse no boardgame. Embora parecidas, estes dois interesses funcionam em direcções opostas, e é necessário mantê-los a ambos. Se por um lado temos que fazer de maneira a que o interesse do boardgame não desapareça, por outro lado se jogarmos muito pouco do mesmo boardgame, o interesse que nós temos em jogá-lo desaparece pois não conseguimos alcançar o máximo do potencial de jogo desse boardgame. E isto é muito importante, pois há que saber conjugar ambas as coisas de maneira a atingir o potencial máximo de divertimento de um boardgame. E quando tal é alcançado, então teremos que saber ser moderados de maneira a aproveitar ao máximo o divertimento que esse boardgame causa, e para tal não podemos jogar o boardgame até não o podermos ver mais. Isso seria errado e tornaria um boardgame que antes era divertido numa rotina chata de jogar mais uma vez aquele boardgame sem interesse.O importante a salientar é a necessidade de manter viva a chama de interesse de um boardgame. Jogá-lo à exaustão é uma maneira certa de nunca mais o querermos jogar. Há que saber manter o interesse de um boardgame jogando-o o menos possível para não perder o interesse mas jogando o suficiente para nós não perdermos o interesse. Tem que haver um equilíbrio entre o jogador e o boardgame. Quando esse equilíbrio é alcançado, então as sessões de jogo tornar-se-ão realmente memoráveis.
No fim, tudo se resume a um elemento chave de qualquer boardgame, a sua capacidade de transmitir divertimento quando é jogado. Infelizmente, como em tudo na vida, quanto mais jogarmos mais rotineiro se torna o boardgame, mais aborrecido. Isso é algo que não queremos, queremos que o boardgame seja divertido durante o máximo de tempo possível. Há também que salientar o facto de alguns boardgames terem estratégias mais óbvias e mais facilmente discerniveis que outros. O seu grau de complexidade, assim por dizer. Um boardgame que tenha uma estratégia que seja facilmente discernisse é mais aborrecido do que um boardgame que tenha múltiplas estratégias, todas elas válidas. Logo, daqui se conclui que um boardgame terá também que ser complexo em termos estratégicos para além do grupo não o jogar até à exaustão. Portanto embora o interesse de um boardgame possa ser mantido numa constante durante algum tempo, é necessário que tal boardgame não seja facilmente quebrado em termos de estratégia, pois tal provocaria uma quebra de interesse por parte dos jogadores, que rotulariam o boardgame como aborrecido e previsível.
O que nós queremos, na verdade, é que as nossas relações que temos com alguém ou com algo sejam recompensadas. Se tratamos bem alguém, se os elogiamos e não os mandamos abaixo, se mantemos a moral deles em cima, nós esperamos ser recompensados pelo esforço, muitas vezes com um simples obrigado ou então com um reforço da nossa relação. O mesmo se passa com as nossas relações com os boardgames. Queremos ser recompensados por jogar a um boardgame. Queremos que a nossa relação dê frutos. Portanto quando jogamos a um boardgame queremos que a nossa fé depositada nele dê resultados, e os resultados são sermos entretidos pelo boardgame. Queremos ser distraídos da vida real, queremos divertir-nos, e isso acontece frequentemente se dermos tempo e espaço ao boardgame, e fazemos isso não jogando vinte vezes de seguida. Quando jogamos muitas sessões de seguida ao mesmo jogo, a magia perde-se, o encanto que o boardgame tinha desvanece-se e logo as recompensas de o jogarmos serão muito menores. Há que ter isto em conta, porque no fim somos seres egoístas quando jogamos boardgames no sentindo em que jogamos boardgames para nos divertirmos, para proveito próprio, não para ficarmos chateados sempre que os jogamos.
Porque no fim de tudo, não há nada mais triste quando alguém com uma boa relação conosco nos desaponta, e o mesmo se passa com os boardgames, ter um boardgame que gostamos mas que com o tempo perdemos interesse e no fim nos desaponta depois de tanto jogar. Realmente não há nada mais triste no mundo de boardgames.
Em resumo, não joguem demasiadas vezes a um boardgame que gostam para ele não perder o interesse, façam uma maior rotação de boardgames diferentes jogados durante as vossas sessões. Desta forma, terão sempre boardgames que não perdem o interesse com o tempo e terão prazer em jogar a esses boardgames. Afinal, a melhor parte de obter algo é a espera e a expectativa até obtermos esse algo.
João Noya




6 comentário(s):
Felizmente (graças às enormes colecções do Paulo e do Costa) esse aborrecimento por jogar até à exaustão um jogo, é algo que não nos deverá afectar ;)
Atinge-nos mais o facto de não conseguirmos ganhar afecto por um jogo devido a não o jogarmos vezes suficientes, que outra coisa.
Tenho pensado que até já nos podem ter escapado alguns bons jogos (não pérolas, mas apenas bons jogos) pelo facto de os termos jogado apenas uma vez e nessa altura ou não os termos percebido bem, ou não estarmos somente com disposição para....
Enfim, enquanto houver material para experimentar, esse não será um problema. E enquanto houver um Liberté, não haverá aborrecimento nem tédio, apenas guilhotinas e muito parasita ;)
:D
Sim, há o oposto do aborrecimento, o não jogar vezes suficientes. Qualquer boardgamer com uma coleção considerável sabe deste problema, mas esse é um assunto para outro artigo no futuro. :D
De acordo com a minha pesquisa jornalística temos um leque de 270 jogos por onde escolher...
O problema está na quantidade de novos títulos a que temos acesso... salvo raras excepções de amor à primeira vista é raro repetirmos um jogo... como tal o aborrecimento é quase nulo...
O único aborrecimento é talvez não encontrarmos um novo liberté com a frequência que desejaríamos... mas estou crente que o sr Wallace nos vai voltar a brindar com mais umas pérolas...
Vivam os parasitas !
#nbs# disse...
sr Wallace nos vai voltar a brindar com mais umas pérolas...
E brindou, chama-se Brass... :)
Por isso é que nós só jogamos Age of Steam uma vez por trimestre. Quer dizer, não é bem por isso, é mais porque aquilo parece um emprego!
#vital
É quem nem mais...
Ganda Martin !
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