07/02/2008

Tragam jogadores

Reconheço que a maior parte da minha infância passei-a a jogar Monopólio. Era um jogo fantástico. Acho, ainda hoje, que nunca acabei, ou vi acabar, um jogo de Monopólio. Isso não seria um problema para meia dúzia (quatro) miúdos que o que queriam fazer era meter a chicha aos pintos (como se diz na minha terra) e jogar. Jogar é uma espécie de desporto masculino. Fazêmo-lo hoje como o fazíamos há 25 anos atrás. Necessidade básica para a sobrevivência masculina.
A grande preocupação nem era o que jogar. Não existia a preocupação porque não existia nada para lá do Monopólio ou do Risco. Se bem que, para quem se lembra disso, o Risco foi um jogo que já só apareceu lá para meados da adolescência e, portanto, já não serviu nos campos de batalha vestidos de sapatilhas e meias brancas pela canela. Nesse período, para os que têm memória e bichinho de jogador, ou seja, homem que é homem, jogou o Petróleo. O Petróleo era o melhor dos piores jogos que existiam na época. Não tinha dados (Uau!!!), tinha uma produção, ainda para hoje e tirando o facto dos componentes serem de plástico, muito acima da média, fazendo lembrar um Ameritrash para amadores. Mas era isso mesmo que nós éramos. Amadores.
Quando nos colocam pela frente o desafio de dar a conhecer aquela saborosa sensação que é o jogo, o jogar, o brincar, perdemo-nos nos preciosismos das novidades e das coisas mais à frente que por aí aparecem e não conseguimos tirar os miúdos dos jogos de vídeo. Eu bem sei que nós somos da geração do walkman e do Zx Spectrum e do Raider. Hoje ninguém se lembra que o Twix já satisfazia duas vezes quando se chamava Raider. Mas eu sou do tempo em que as pastilhas "Pirata" eram "a opção". Fazia lembrar o Ford quando fabricava carros na sua época e dizia que todos os americanos podiam ter carro, desde que fosse preto. Em Portugal, todos os portugueses podiam mascar pastilhas, desde que fossem "Pirata". Isto porque as Gorila apareceram depois, já com o advento do Português Suave com filtro - outras histórias. Dos jogos sobravam os estúpidos party games (Pictionary e os outros whatever-ary), o Trivial que eu decorei, e o Cluedo que reforçava a dedução óbvia. Ainda hoje são marcas quase equivalentes à Pepsi Cola - toda a gente conhece.
A Coca Cola dos jogos, essa, a mais conhecida marca de sempre, era o Monopólio. Não posso deixar de refazer a minha opinião sobre este jogo, quanto mais não seja e só porque, despertou a minha curiosidade por jogar estas coisas. Não haveria de ser mais feliz se o não fizesse, disso tenho a certeza. Porque o prazer de jogar, em companhia, um jogo, é uma coisa que só quem passa pela experiência pode atestar.
Nota mental: não temos de ser nós a fazer o trabalho de viciar jogadores, os jogos fazem-no. Nós só temos de sentar pessoas à volta deles. Como?

12 comentário(s):

Bruno Valério disse...

Belo post Paulo. Como "gamer" da mesma geração identifico-me com tudo o que escreveste.

Também passei horas incontáveis a volta de um Monopólio com os meus amigos e eram tardes ou noites muito bem passadas por vezes mesmo hilariantes tais eram as voltas que aqueles dados davam. No meu grupo o Monopólio cedo se tornava numa espécie de Chinatown onde o negócio entre os jogadores era o ponto alto da festa com cada um de nós a tentar convencer o outro que o acordo que lhe propúnhamos era o melhor… para ele claro… e nunca para nós.

O 48K que também tive afastou-nos de início um pouco dos jogos de tabuleiro como o Monopólio, Cluedo, etc… mas apenas porque era novidade. Até porque enquanto os jogos do Spectrum carregavam, LOAD “” ENTER, quase que dava para um fillerzito tipo Pescadores Destemidos, sem dúvida o meu jogo de tabuleiro preferido da época.

Mas se é obvio que tem de haver por parte dos jogadores uma certa inclinação para a “coisa”, (aka – jogos), é bem verdade que como dizes um jogo faz os jogadores… pelo menos se for bom, já que se não for também os poderá afastar.

Como nota final apenas um conselho para quem nunca tentou mastigar de uma só vez um pacote de SuperGorilas… não são gente não são nada enquanto não o fizerem.

:D

Hugo Carvalho disse...

Nem a propósito. No dia em que estreia a última aventura de Rambo, leio este post do Soledade a transbordar saudade. Eu por acaso nunca joguei muito Monopólio. Nós tínhamos uma variação do jogo chamada Milionário (jogado com uma roleta em vez de dados) e que foi editada pela também saudosa Karto. Mas era a mesma coisa, basicamente.
Eu tenho um imenso respeito pelo Monopólio. É um clássico incontornável e temos de ter em conta que é um jogo da década de 30 e a história do seu aparecimento, durante a depressão, é uma coisa maravilhosa, atendendo ao tema do jogo e o que significava na sociedade americana daquela altura. Além disso, se tirarmos o factor sorte, é um jogo com bastantes virtudes, nomeadamente as negociações que existem e também tem a vantagem de haver muito regabofe á mesa. Ao longo dos seus 70 anos conseguiu juntar muitas famílias.
Hoje em dia se calhar não voltaria a jogar monopólio, mas reconheço o valor do jogo e aquilo que significa. Além disso os miúdos adoram jogar e não lhes faz mal nenhum, embora ficasse mais contente se jogassem Catan. Por outro lado é um jogo que tem outro mérito, soube-se sempre reinventar. Se formos ás prateleiras de qualquer hiper vemos a versão Disney, a versão Euro, a versão Futebol e sei lá que mais. O que me chateia mais no jogo e também provavelmente a outros jogadores de tabuleiro, é que ele acaba por ofuscar os outros jogos que por sinal são bastante melhores. Se dermos uma volta no Natal pela Toys r us vimos as avós a comprar monopólios para os netos. Isso é um bocado deprimente. Mas mais vale isso que o Trivial.
No entanto eu jogava mais Risco. Isso era outra coisa. Todos os dias meus amigos. Todos os dias fazíamos uma joga monumental de Risco. Os méritos do Monopólio aplicam-se ao Risco também.
Depois jogava o Petróleo que tinha componentes espectaculares e eu escolhia sempre a BP que os meus adversários chamavam de “Bela Porcaria”. Ainda cheguei a comprar o Petroleiros que, pelo que me lembro, tinha uma mecânica que simulava as variações do preço do petróleo.
Tenho muita pena de não ter acesso ao Diplomacy e ao Axis & Allies. Eu ainda jogava Risco quando saiu o Catan. Se eu tivesse descoberto o Catan na altura, teria tido uma adolescência bem mais feliz. Assim perdi-me nos copos e nas discotecas.

Unknown disse...

Excelente o estilo:
"Eu ainda sou do tempo..."

Eu sou bem mais novo que vocês todos... um chavalo... um puto... vocês tão velhos... eu não...
Para mim existiam as Super Gorilas e os 286...

Quanto a Jogos, eram sempre de PC... pois eu já sou do tempo do joguinhos de uma e duas (upa upa que jogos) disquetes e exceptuando um ocasional Trivial eu era mais è bola... ah e tal o que é que vamos fazer? - jogar à bola ou vandalizar qualquer coisa ? - geralmente jogávamos à bola até porque vandalizar era perigoso...

Quanto a novos jogadores e ao final do teu texto para mim o problema é a desmistificação do que é jogar jogos de tabuleiro.... as pessoas que invarievelmente gozam e dizem :
Olha lá vai ele jogar os seus joguinhos... - acabam na discoteca a jogar a 1 euro a máquina touch screen lá do canto...

Toda a gente gosta de jogar, já jogou, adora um bom joguinho, ganhar, rir e estar com os amigos... mas admitir uma costela infantil é uma acto de Homem... e nem todos chegaram ainda a esse patamar evolutivo ...

ps- o tema e o post são bons quando o pessoal responde com autênticos testamentos... quem me dera ter escrito isto... grrrrrr... Soledade !

Costa disse...

Gosto tanto destes revivalismos existênciais, estas crises de meia-meia-idade que todos nós temos logo que passamos a barreira dos 30. Quando chegares aos 35 isso passa-te Paulo. A mim ainda me faltam 5 meses, lol, por isso é que ainda consigo partilhar contigo este bonito momento de regresso ao passado... como é que foi possível termos deixado acabar as locutoras de continuidade da RTP?? Bons tempos...

Sim, o Monopólio... a milestone! Definitivamente o jogo mais jogado na minha infância. Não vale a pena listar todos os defeitos que o jogo tem e que são muitos, mas é preciso destacar a sua longevidade, a sua resistência ao tempo, 7 décadas após o seu nascimento continua a ser um rosto bem visível e jogado por todo o mundo. Para além das muitas acertadas estratégias de marketing que souberam mantê-lo vivo, tem de haver ali alguma coisa que brilha... e o que brilha é o facto do jogo ser um verdadeiro family game. Há negociaçõa, há conversa, há galhofa, há convívio, há alegria... e isso ninguém tira ao Monopólio.

Mexia disse...

I have a confession to make...

Ha coisas que parecem sortilégios do destino.

Ainda no passado fds consegui convencer a minha mulher (que detesta qlq tipo de jogo) a jogar monopólio.

ehehe... durante 2 horas entreti-me (pois ela apanhava uma brutal seca) a ser um bom gestor imobiliário, para mais tarde me tornar um construtor civil de reconhecido sucesso.

O monopólio lembra-me ainda algo que pouco ou nenhum resultado teve (para além dos sorrisos sinceros que foram "pagamento" suficiente) mas mto gozo e trabalho nos deu a organizar. Para os que não sabem, que serão todos vós com excepção do Soledade (co-organizador desta iniciativa) corria o ano de 2001 (acho eu) e pusemos em marcha um projecto que se chamou "Monte Real - Vila Monopólio". Infelizmente o projecto nao conseguimos que o projecto tivesse a magnitude que vislumbrámos. Ainda assim realizou-se um Torneio de Monopólio com cerca de 50 crianças, ofereceu-se outro tanto em diferentes jogos, insufláveis e refeições no MacDonalds (tudo isto sem gastarmos 1 centimo).

ai que saudades...

qto ao ZX eu confesso que foi tb aqui um sortudo pois tive a versão +2 que so demorava entre 20 a 30 minutos a carregar cada jogo qdo, e repito, qdo a sorte e o acaso la permitiam que o jogo "entrásse" à primeira.

Excelente post!

soledade disse...

Já nem me lembrava dessa "vila monopólio".
Carradas de miúdos a jogar monopólio e bastou uma reunião com a hasbro para conseguir para aí uns vinte jogos (acho que ainda tenho disso cá em casa). E tudo sem dinheiro.

Acho que podemos começar por aí. E que tal convidar essas pessoas e outras, directamente, para a LeiriaCon 2009?

Tragam jogadores!

Hugo Carvalho disse...

Pronto, não resisti e já vi o Rambo. Para todos aqueles que já têm saudades dum filme à antiga, ou seja, um homem contra um exército, alegrem-se pois Rambo voltou. Não é melhor que o primeiro, o magnifico first blood, mas faz bem o seu papel de voltar a trazer ao público as sensações dos anos 80.
O que falta mesmo, era depois de ver o filme, passar ali pelo vídeo clube Oásis e comprar a cassete pirata do jogo de computador baseado no filme. Pagava 300 paus, escrevia load “” no 48 k e ficava a ver aquilo a entrar. Com toda a certeza enquanto o jogo entrava teria o screen do poster do filme e o logótipo da editora “Ocean”.
Depois, se o jogo entrasse, escolhia as teclas “q” “a” “o” “p” “n” e o “m” para as granadas e lá ia fazer-me à vida.
Em vez disto, cheguei a casa, fui à caixa do correio e abri a correspondência cheia de contas para pagar!
Mas, confesso, deitei-me a pensar como seria o jogo do John Rambo se ainda houvesse o 48K.

soledade disse...

Hugo
Acho que é mesmo isso. E enquanto o screen Rambo ou Ocean aparecia o rádio pequenino gritava e nós, em tensão, íamos comentando "isto não vai entrar". "O ruído não é normal". "Houve ali um grunhido esquisito"

Aprendemos a distinguir grunhidos em mono. O que seria de nós com aqueles aparelhos a carregar jogos em surround 5.1?! Espectacular!

Azulantas disse...

E regular a cabeça do gravador com a chavinha de fendas miniatura?

E ir ao centro comercial que ficava a meia hora a pé para ir trocar o jogo que não entrava?

E copiar jogos de gravador para gravador? E jogar uma partidinha de futebol carica enquanto o jogo gravava/carregava?

E beber um Capri-Sonne?

Também recebo contas pelo correio e penso nessas belas tardes bem passadas.

Quanto a mim, o Monopólio, e todos os jogos de tabuleiro, valem, não em si, mas pela experiência que os jogadores partilham.

As memórias que tenho do Monopólio são de tardes inteiras a ir da bancarrota ao monopólio através de alianças estratégicas de ataque ao gajo mais rico do momento. Risco idem, Petroleiros idem.

Eu acho que os jogos modernos são excelentes, mas as experiências desses jogos antigos, essas são do melhor e devem-se sobretudo aos amigos.

Assim, o meu tributo, vai para os grandes jogadores que comigo partilharam e partilham jogos. São eles que fazem um "mau" jogo como o Monopólio, uma experiência inesquecível.

Hugo Carvalho disse...

Quem se lembra disto?
http://www.bestgamesland.com/games/RickDangerous.php

podem nao acreditar mas ainda me lembro da maior parte das primeiras armadilhas

Bruno Valério disse...

O Rick Dangerous era um clássico, lembro-me que surgiu já bastante tempo depois de ter o 48K mas era dos melhores sem dúvida.

Juntamente com o MAtchday, (o PES da altura) e mais um ou dois eram o meu grande vicio.

Unknown disse...

Joguei no PC e tinhas gráficos EGA !!
E a musiquinha quando passava de nível ? Linda !
"Porreiro Pá!"

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