Esta semana serviu, também, para levantar o pó a algumas caixas já algo desgastadas. A força do pó amolou o El Grande, versão francesa, comprada em 2000. A força do pó, mas também da água, enxovalhou, ainda mais, uma caixa de Dune, versão francesa, emprestada em 2008. Fruto de uma intervenção divina, este Dune ressuscitou das profundezas dos mares e libertou-se de uma inundação caseira. Esperneou para merecer o Sol, ou o que quer que apareça por detrás do Planeta das especiarias, e subiu à mesa cá de casa. Um contraste de sensações foi a primeira e última impressões. É um daqueles jogos esquisitos, da velhinha guarda da Avalon Hill, já marcado de rugas e de pó e de bolor. Mas um clássico é sempre um clássico e, este especialmente, revelou-se um batedor de primeira apanha, um perdigueiro de coração.
O El Grande, "inetemático" e frio, distante da sensação arrebitada do sucesso da caça como a do seu fiel amigo perdigueiro, sofreu do pragmatismo do pó que o cobriu de 2000 até aqui. Parece que um século passou. Mas a chama ainda o acende nas madrugadas de frio. Ele ainda serve de aglutinador de almas e chama-nos para a mesa, consensual. Não é fácil contentar as almas, mas este, por vezes, consegue-o.
Alguns passam ao lado, mesmo sendo primeiros em muitas coisas. Puerto Rico, por exemplo, parece cansado e desgastado. Sofreu pela passagem do tempo, está vazio, sem graça. Ninguém o escolhe com segurança. O pior que se pode dizer a um jogo é convidá-lo para jogar, por favor. Faltando a confiança e a força que um número um merece. Um número um tem de sobreviver ao tempo, tem de mostrar carácter, tem de aquecer as almas, sacudir o pó e enxugar as rugas.
Gostar de um jogo assim é fácil. Gostar de um jogo assim, sempre, é possível. Puerto Rico sucumbiu no tempo, ultrapassado pela vida deixou saudades. Daqui a um temporal ou dois estaremos, com pena, a convidá-lo para a mesa. Nem todos concordarão em tê-lo lá, assim, desejado e brilhante como outrora. Essa missão fica para os Dunes e para os Libertés. Alguns dirão também que para os El Grandes. Concordo. Mas não para o Puerto Rico. Esse, esse, estará na memória de um número um invejado mas poeirento. Orgulhoso, é verdade, mas com pena de si mesmo.
Alguns passam ao lado, mesmo sendo primeiros em muitas coisas. Puerto Rico, por exemplo, parece cansado e desgastado. Sofreu pela passagem do tempo, está vazio, sem graça. Ninguém o escolhe com segurança. O pior que se pode dizer a um jogo é convidá-lo para jogar, por favor. Faltando a confiança e a força que um número um merece. Um número um tem de sobreviver ao tempo, tem de mostrar carácter, tem de aquecer as almas, sacudir o pó e enxugar as rugas.
Gostar de um jogo assim é fácil. Gostar de um jogo assim, sempre, é possível. Puerto Rico sucumbiu no tempo, ultrapassado pela vida deixou saudades. Daqui a um temporal ou dois estaremos, com pena, a convidá-lo para a mesa. Nem todos concordarão em tê-lo lá, assim, desejado e brilhante como outrora. Essa missão fica para os Dunes e para os Libertés. Alguns dirão também que para os El Grandes. Concordo. Mas não para o Puerto Rico. Esse, esse, estará na memória de um número um invejado mas poeirento. Orgulhoso, é verdade, mas com pena de si mesmo.


7 comentário(s):
Para mim o Puerto Rico comprou uma casa num condomínio de cidadãos seniores na Florida e mudou-se...
O Liberté continua a jogar dominó no parque e a dizer tu ru ru ru ru ruru rururu ... avante camarada...
O Dune vive num condomínio privado em Hollywood mas ninguém o conhece dos tempos em foi uma estrela...
Muito bem lembrado o post.
Gostei do estilo.
O DUNE faz-me lembrar um pouco aquela personagem fabulosamente interpretada por Gloria Swanson no longínquo SUNSET BLVD de Billy Wilder... "i'm ready for my close-up mr. DeMille!"
Gasto e envelhecido ainda assim mantém intacto o seu carácter e a sua originalidade.
Já EL GRANDE é um clássico por via da sua robustez e sobriedade, faz-me lembrar o mítico Toshiro Mifune em SHICHININ NO SAMURAI de Akira Kurosawa.
Falar de PUERTO RICO é falar de controvérsia, de polémica, de diz que disse... uns ainda o acham o melhor, para outros fica a recordação de qu um dia ele já foi o melhor. A mim faz-me lembrar David Thewliss em NAKED de Mike Leigh. Um dos melhores papéis que vi na altura, mas depois ignorado pelo tempo. Irreverente e sensacional, deixou que o seu sotaque se perdesse na memória do tempo.
Muito bom post Paulo, poético mesmo.
Quanto aos jogos não tive o prazer de jogar Dune mas em relação ao El Grande e ao Puerto Rico acho que são jogos a ter em qq colecção que se preze... mas confesso que se jogam cada vez menos.
Não há nada como os clássicos. Quando voltamos a eles é que percebemos o quanto estão acima dos outros.
Tenho pena que um jogador de tabuleiro tenha nas veias um consumismo algo irracional. Esse consumismo tira um pouco o prazer de desfrutar um bom clássico, isto porque há sempre jogos novos a vir da alemanha ou de outro sítio qq. No vosso caso nem tanto porque jogam bastante, mas quem faça um jogo por semana como eu, sente mais isso.
Mas é importante fazer de quando em vez uma merecida homenagem aos grandes jogos que nunca se perdem no tempo. Até para os novos jogadores saberem quem manda!
O teu post diz tudo.
O Puerto Rico é aquele jogo que fez clic. Que nos levou a jogar certos jogos. Que é consensual quando não se conhece muito, mas que depois de se jogar algumas vezes se apaga. Está lá sempre, na memória, como um jogo engraçado, mas que quando somos levados a escolher algo para jogar, fica sempre para última opção.
O Dune. É sem dúvida um clássico. Tem algumas opções interessantes. Pensamos nele como um bom jogo. Mas daí a ser rejogado algumas vezes vai um grande passo. Dentro das opções de jogos que nos levam 2-3 horas existem mais opções e claramente menos contraditórias. Faz-me lembrar o Kremlin. É aquele jogo divertido e muito interessante, mas, depois de o jogarmos 7-8 vezes perde o interesse.
O El Grande. É o Area-Control por definição. Se bem que o controlo não é muito grande, e o caos por vezes instala-se. Para mim continua a ter o problema "daquela" carta.
Bom post ;)
Pois é, por vezes jogar uns clássicos deixa-nos poéticos. E o Soledade transpõe para palavras essas sensações melhor que ninguém. Ter voltado a jogar um Dune tantos anos depois fez-me... qualquer coisa. Meus amigos, dentro de alguns meses teremos que voltar a jogar um Dune e isto porque vou construir um tabuleiro especial para a ocasião.
Abraços
OBA !
TABULEIRO !
Venha ele...
Eu levo a areia que for demais para a minha camioneta ...
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