CONTAINER (2007)
Thomas Ewert e Franz-Benno Delonge
Valley Games
3 a 5 jogadores
+/- 90min
Regras em inglês no BGG
Existem muitos e bons jogos económicos, mas são poucos aqueles que simulam um simples sistema de oferta e procura como CONTAINER. Este jogo é um organismo vivo, uma simulação micro-económica tão simples e tão realista, que nos transporta para uma experiência bem diferente do que aquilo a que estamos habituados a jogar. Não quero com isto dizer que o jogo é sublime, que não é, apenas digo que CONTAINER é um jogo bem diferente de todos os outros jogos económicos.
Existem 5 tipos de recursos que podem ser produzidos, vendidos, comprados, vendidos de novo e leiloados. Cada jogador tem um tabuleiro individual que mostra a sua área produtiva (fábricas e respectivos armazéns) e o porto com o seu armazém próprio e distinto do armazém da fábrica. Os jogadores vão adquirindo fábricas que lhes permitem aumentar a capacidade produtiva e a sua capacidade de armazenagem. Sempre que um jogador produz, pode armazenar nos seus armazéns fabris o dobro das mercadorias equivalente ao número de fábricas que possui (se um jogador tiver 3 fábricas, consegue armazenar 6 produtos, simples). Sempre que produz, organiza os seus contentores nos respectivos espaços do armazém que indicam diferentes preços. Não há aqui espaço para um FIFO eficaz ou para um esquema de armazenamento de picking, com stackers da Rocla a trabalhar a pleno gás. É tudo bem mais simples. O jogador produz e coloca à disposição os produtos que produz a diferentes preços. Estes produtos armazenados nas fábricas serão posteriormente comprados pelos outros jogadores, dependendo se o preço é concorrencial, é claro, porque ninguém quer comprar caro. Os bazares dos chineses costumam estar sempre cheios, a razão disso não é a qualidade ímpar do que vendem, mas sim o seu preço. Em CONTAINER, a regra mantém-se. Ter um bom preço é meio caminho para escoar stocks. E isso é muito importante, porque se o jogador atingir o seu limite de armazenamento e não conseguir vender está obrigado a não produzir.
Os produtos comprados nos armazéns fabris são posteriormente colocados à venda nos portos onde também existem espaços com preços diferenciados. Também nos portos há limites de armazenagem: um contentor por cada armazém. Cada jogador começa de início com uma fábrica e um armazém, logo pode armazenar de início 2 contentores nos armazéns fabris e 1 contentor nos portos. Estas limitações só podem ser quebradas com a compra de novas fábricas e novos armazéns, e cada uma destas estruturas é sempre mais cara que a antecedente.
Adicionalmente cada jogador possui um cargueiro, com capacidade para transportar 5 contentores, que navega pela mesa como se ela fosse o mar alto. Este barco pode ter três movimentos distintos:
- do mar para um porto;
- de um porto para o mar;
- ou do mar para a ilha.
Se o movimento do barco terminar no mar, essa acção dá-se por concluída. Se o movimento terminar num porto de um outro jogador (nunca o seu próprio porto) o jogador pode comprar contentores, pagando por eles o valor correspondente ao espaço onde eles estão armazenados. Se por outro lado, o barco fizer uma viagem à ilha, aí toda a gente (excluíndo o proprietário do barco) pode fazer uma “blind offer” pela carga. É aqui que os jogadores vão fazer mais dinheiro, e no fim do jogo é isso que conta, o dinheiro. Ora o belo do guito custa a ganhar, logo as ofertas tendem muitas vezes a não ser muito boas, por isso o dono do cargueiro tem duas opções logo após todos revelarem o conteudo da sua proposta de compra:
- Aceita a oferta mais alta e em troca dos contentores recebe o pilim;
- ou não aceita nenhuma proposta e paga ao banco o valor igual à proposta mais alta e fica ele próprio com os contentores que transportava.
Há aqui um pormenor muito importante neste mecanismo de venda na ilha. Um jogador que, por exemplo, aceite uma proposta de 15000 do jogador A pela sua carga, vai na realidade receber 30000, porque o governo subsidia o negócio e oferece ao jogador vendedor igual montante ao do jogador que fez a compra. Logo, a decisão de não vender e comprar ele próprio a sua mercadoria penaliza-o a dobrar, porque neste caso ele não tem direito ao belo do subsídio. Isto acaba por ser determinante no jogo.
É preciso dizer ainda que no início de cada jogo, cada jogador recebe uma carta de valores que identifica o preço que cada contentor (comprado na ilha) lhe vai valer no fim do jogo. Estas cartas são todas diferentes e logo vai criar uma dinâmica de jogo bem interessante, porque o contentor que para mim é mais valioso não será para mais nenhum dos outros. Este mecanismo faz com que todos os contentores circulem nesta simulação micro económica. Paralelamente a isto, Delonge e Ewert criaram ainda uma regra suplementar, que diz que no fim do jogo todos os jogadores vão descartar todos os contentores da côr que possuírem em maior abundância. Ora esta regra à la Knizia torna ainda mais estratégico este jogo, porque cada um tentará fazer stock excedentário da côr que menos lhe interessa, para a poder descartar, evitando assim a penalização inerente à perda de uma côr que lhe seja mais valiosa. Ora esta procura por uma determinada côr irá obrigatoriamente chocar com um qualquer outro jogador para quem esse tipo de contentor lhe é valioso.
É neste mercado de procura oferta, que CONTAINER vai buscar a sua essência e é um daqueles jogos que vive exclusivamente dos jogadores. Há jogos que jogam os jogadores, este não. Em CONTAINER, cada experiência será única e não necessariamente boa. Jogar este jogo com as pessoas erradas pode ser penoso e demorado. Mas fazer uma partida de CONTAINER com o grupo certo, poderá ser uma experiência inolvidável. E este será porventura um dos grandes defeitos do jogo, não é homogéneo suficiente para subsistir por si só. Como qualque jogo iminentemente de leilão, este também depende da malta que está sentada à mesa. Outro defeito a apontar é a péssima escolha de cores. Alguém (gostava de saber quem) teve a bela ideia de usar beges e castanhos e marrons e laranjas que são quase todas iguas e um gajo passa metade do jogo a perguntar “isto é de que côr?”.
Ainda assim, julgo que estamos na presença de um bom jogo, cheio de interacção e de bons motivos para uma noite de galhofa. O jogo tem a assinatura gráfica do mítico Mike Doyle, mas tirando a caixa (para mim espantosa) o génio ficou aquém de muitos dos seus trabalhos anteriores, apostando num esquema cromático agreste e pouco estilizado.
O jogo tem a produção da canadiana Valley Games, por isso o seu preço não é muito convidativo. Nas lojas online do costume podemos encontrá-lo por valores que variam entre os €44 e os €50.
NOTA FINAL - 7.5 Este foi o último design de Franz-Benno Delonge, não viveu o suficiente para ver este CONTAINER sair para a rua. Autor de jogos como MANILA, BIG CITY, TRANSAMERICA, DOS RIOS e GOLDBRAU, o mundo ficou precocemente sem um dos seus bons criadores de jogos. A equipa do SpielPortugal, em meu nome, deixa aqui a devida homenagem.



9 comentário(s):
Há jogos que jogam os jogadores, este não. Em CONTAINER, cada experiência será única e não necessariamente boa. Jogar este jogo com as pessoas erradas pode ser penoso e demorado. Mas fazer uma partida de CONTAINER com o grupo certo, poderá ser uma experiência inolvidável.
Nem a propósito Luis, na semana passada jogámos um Container e essa tua frase sintetiza o que é um jogo de Container.
Lembro-me até de o Vital ter dito qualquer coisa do género: “este jogo depende muito dos jogadores que o jogam”
A mais pura das verdades até porque o Container é no nosso grupo um jogo muito divertido, quer pelo jogo em si que tem mecanismos bastante interessantes, VIVÓ LEILÃO, quer pela hora e meia de mercado do bulhão que o jogo proporciona. É do género epá tens o soalho flutuante a 3 então espera lá que já te lixo e ponho a 1 :D. É claro que isto não é apenas pensado… é também dito em voz alta para que a risada seja geral.
Ah convém realçar que nos temos carvão, soalho flutuante (castanho claro), laranjas, algodão e o carvalho (castanho escuro). Claro que dentro destes há o de boa qualidade, normalmente o meu, e o de má qualidade que é obviamente o do resto do pessoal.
Não é um colosso de jogo mas é um jogo que jogado com as pessoas certas é muito mas mesmo muito bom.
Jogo mauzinho... eu dei-lhe nota 5 e apenas por respeito ao autor, se o gajo não tem quinado recebia um 4.
É aquela teoria da arte. Se o gajo morre as obras valem logo mais 10%. Este até teve um aumento de 20%... fui generoso :P
Eu gosto do jogo. Tem o problema de depender dos jogadores mas, numa noite mais descomprimida - eu arriscaria até dizer que este jogo pode servir para introduzir newbies - pode ser uma solução para 5 jogadores.
Tem um sistema até engraçado mas não se pode, de facto, perder muito tempo com ele. Joga-se a aviar, a fazer e a deixar fazer os negócios que se têm de fazer.
Quanto à produção o problema das cores é grave. Eu até nem costumo ter dificuldades em perceber as cores e desta vez, não fora eu beber uma garrafa de vinho sozinho, e não as conseguia distinguir.
Ao autor um RIP. Ele deve ficar satisfeito com o jogo que fez. Não concordo nada com o Carlos quando diz que o jogo é "mauzinho". Mesmo uma garrafa de vinho depois, o jogo é melhor que isso. 7.
Ora aí está a deixa correcta. Uma garrafa de vinho. No nosso caso foram duas a acompanhar o Container.
Gosto bastante deste jogo, mas acredito que só funciona bem com o máximo de jogadores. Com 3 e 4 deve ser um pouco mais exasperante.
Há que evitar também a variante para noobs, que prolonga o jogo ad eternum.
É um 7.5 para mim.
Ó Bruno o castanho claro é pinho :)
Pois para mim, só de imaginar que se possa parecer a Modern Art, já me arrepia os cabelos da espinha!
Ao nível dos componentes até tinha ideia de ser um jogo muito bem produzido, mas pelo que li não é bem assim!
Definitivamente tenho outras opções para gastar o meu pilim. Não digo com isto que não seja um belíssimo jogo, não deve ser é para mim...
@Carlos Abrunhosa
Ninguém disse que o jogo é mal produzido, isso é mentira. O jogo tem bons componentes e bons materiais. O problema foi a escolha de cores... bad call!
@brainstorm
Mauzinho é exagerado, mas tu és mesmo assim... ou oito ou oitenta e para ti este é um oito. Amigo, defenderei até à morte o direito que tens à tua opinião :P
Eu cá já acho que o jogo é um bocado melhor que isso. É um bom jogo que poderá proporcionar boas horas de jogatana.
@duarte
Com 3 não resulta mesmo. Mas a 4 já dá para jogar bem.
Lá está Costa... cada um tem a sua opinião. Quando o jogarem não me convidem, simples ;)
O jogo é MAU e ponto. Em termos de tempo/diversão, é do piorzinho que se apanha.
Com 90-120 minutos de jogos, para 5?
Assim de repente, lembro-me:
- Power Grid
- Antike
- El Grande (sim, até este)
- La Cittá
- Union Pacific
- Amun Ré
...
Mas como é óbvio, é a minha opinião, com todos os defeitos que isso implica. Foi uma primeira experiência, e pode até ter sido disso, mas acho que não lhe dou uma segunda oportunidade.
Sete.
Principalmente por ter uns mecanismos "macacos"...
Mas é um jogo estilo condutor de Domingo... não... nem sai de cima...
@brainstorm
Foi o que eu disse Carlos. Tendes a repetir-me. É a tua opinião e a minha é que o jogo não assim tão mau.
Claro que tens razão numa coisa, existem jogos para 5 que para 90 a 120 minutos são melhores, tu mencionaste alguns e eu até podia dizer outros tantos.
Mas o que eu quis chamar a atenção na review é que se trata de um jogo económico bem diferente de todos os jogos económicos que jogámos até hoje. Despido de tema, por assim dizer, CONTAINER é na realidade uma exercício vivo de economia. Neste sentido o jogo flui de acordo com o mercado que os jogadores vão criando e não há influências externas a influenciar o seu rumo. Não há cartas maradas, set-ups manhosos, eventos ou qualquer outro mecanismo que, de forma inverosímel, o influenciem. É uma simulação realista, a uma escala micro-económica claro, de uma simples sistema de oferta e procura. E neste sentido o jogo para mim tem aspectos positivos.
Agora que há jogos bem melhores, claro que há. Mas se um jogador gostar de jogos económicos, tem de experimentar CONTAINER, porque é uma experiência de jogo bem diferente daquilo que existe por aí.
Peace...
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