13/05/2009

Aljubarrota, preview

Não fora por outra coisa, a Batalha de Aljubarrota já havia cumprido o seu objectivo porque a ela, à batalha com vitória, se deve o mais belo monumento português, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória.
Já lá vão uns poucos de anos que a Batalha aconteceu. A poderosa Castela trazia maus ventos e péssimos casamentos do outro lado da fronteira e, num rasgo de coragem e de santidade, os tugas, pobrezinhos de quantidade mas imensos de alma e coração, arrancaram uma das mais significativas vitórias militares da nossa História. Após o embrulho dos espanhóis, aqui simpaticamente distinguidos como Castelhanos devido às misturas da parte sul do reino, o Mestre de Avis e a sua dinastia arrancariam para um época de sucessos comoventes e feitorias sublinháveis.
Parte deste sucesso deveu-se ao recentemente canonizado Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira. Desde miúdo que D. Nuno funciona para mim como um herói à antiga. Pudera! Haviam de o ver em cima daquele cavalo a segurar aquela espada imensa! Àquele não o derrotam, pois não. Nem com séculos de história, vos garanto.
Aljubarrota, o jogo a publicar pela Majora lá para o final do ano, mostra-nos a batalha e a forma como os portugueses abençoados conseguiram manter a coroa intacta. Neste jogo, todos jogamos pelos portugueses contra o poderio imenso dos castelhanos. O objectivo, claro, é cumprir a história e vencê-los mas, não pensemos que estamos a falar de uma coisa simples. Não. Apesar do jogo ser em equipa, o poderio Castelhano é, de tal forma, imenso que, não nos ponhamos a pau e eles levam a taça. Na verdade, o jogo simula muito bem as dificuldades com que os portugueses tiveram de lidar e alguma da sorte que tiveram que ter para derrotarem o inimigo (embora a sorte tenha dado muito trabalho e custado muitas vidas, disso não fiquem dúvidas).
Num mapa desenhado com o teatro das operações e sublinhando os detalhes mais importantes do campo de batalha, vemos os portugueses a tentar preservar a sua bandeira e a tentar eliminar os espanhóis, apanhando-os de surpresa nas covas dos lobos (buracos escondidos, com estacas, criados para apanhar, sobretudo, a cavalaria castelhana), contando com a ajuda da famosa "ala dos namorados" (um dos lados do quadrado do exército de D. João), e a "ala dos ingleses", arqueiros bem mais hábeis que os anteriores e essenciais para a vitória.
Embora jogado apenas como protótipo, posso afiançar que estamos perante um caso de sucesso. O jogo, para além de ser didáctico e, nesse pressuposto, também útil, revela-se como um verdadeiro jogo, de pura fruição, em que todos competem por um bem maior e, de uma forma cooperativa mas também competitiva, esperam alcançar a vitória.
Cada jogador em Aljubarrota representa uma família de nobres notáveis, ou famílias importantes que, de alma e coração abertos - e também com alguns interesses políticos, obviamente - vão tentar aniquilar as tais enormes forças castelhanas. O objectivo comum de todos os jogadores é vencer a guerra. O objectivo escondido, ou melhor, disfarçado, de cada um é ter uma maior preponderância nesse objectivo e, assim, ganhar o jogo. Ou seja, um jogador só ganha o jogo se todos ganharem a guerra mas, dentro dos que ganharam a guerra, vence individualmente aquele que mais contribuiu para esse sucesso. É mais ou menos isto.
As portas do teatro de operações abrem-se de par em par, escancaradas, para darem entrada os senhores de Castela. Eles vêm de um único local e impulsionados de forma automatizada (nenhum jogador decide pelos castelhanos, eles aparecem no jogo e movimentam-se de forma completamente mecânica, através de cartas). A força dos portugueses está em saber esperar o momento certo para atacar.
As decisões tomam-se em parcerias em que todos procuram o melhor para os seus interesses. No meio do calor da guerra o Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira, ergue-se como um dos estrategas mais importantes, revelando poderes especiais em relação aos mortais. Falando em mortais, se há uma coisa que não pode acontecer é a morte de D. João ou a conquista do porta estandarte.
Do outro lado, nós, os jogadores, tentando esconder qual é a nossa família, por quem nós nos movemos, espalhamos habilmente as nossas tropas na expectativa de cercar os castelhanos ao fundo do corredor por onde estes entram, ou foram levados a entrar, numa espécie de armadilha para a batalha mas que todos têm medo de travar. Uma das coisas curiosas neste jogo é que nós, os portugueses, embora consigamos de forma, mais ou menos, controlada, encaminhar os castelhanos para locais estabelecidos, temos medo de ir à batalha. A imensa força do inimigo não é facilmente contrariável e isso mostra-se muito bem em Aljubarrota.
Mas de que vale termos medo se o resultado tem de ser a vitória? Pois é. O resultado tem de ser a vitória. Caso os portugueses não vençam Castela, nada a fazer. A entrega da nação está destinada a ser feita ao inimigo e os perdedores seremos todos. Por outro lado, caso uma força superior enalteça as nossas medidas e a nossa coragem e vençamos o inimigo, então a vitória é de quem mais contribuiu para o sucesso da história. Reconheço que não sou grande fã de jogos cooperativos. É verdade. Mas Aljubarrota tem mais que isso. É um exercício cooperativo em certa medida porém tem um único vencedor. Para além disso mexe demasiado comigo e com a minha alma de revolucionário anafado. Não quero perder para eles, os espanhóis, nem no tabuleiro. Perdoem-me a falta de vizinhança mas, está-me no sangue. Para que conste, Soledade, é um nome bem português!
De realçar, uma vez mais, o trabalho do seu autor Gil D'Orey, aquele que pode tornar-se no primeiro grande designer português a fazer jogos de autor e também a Majora, essa mítica marca da minha infância que, como a todos os meus amigos, me ensinou a brincar.
Entrevista com o autor aqui

2 comentário(s):

Costa disse...

Bonito jogo, belíssima capa, boa preview. Espero com ansiedade o lançamento de ALJUBARROTA.

Rôla disse...

O Gil D'Orey está de parabéns. Para o nosso panorama editorial isto é uma verdadeira lança em... Aljubarrota!

Based on original Visionary template by Justin Tadlock
Visionary Reloaded theme by Blogger Templates

Visionary WordPress Theme by Justin Tadlock Powered by Blogger, state-of-the-art semantic personal publishing platform