16/10/2009

Endeavor, crítica

Carl de Visser e Jarrat Gray | Z-Man Games | 3 a 5 jogadores | aprox. 75min
ENDEAVOR era um dos jogos mais aguardados pelos jogadores de tabuleiro espalhados por esse mundo fora. Há já algum tempo que se vinha falando deste jogo, cujas imagens foram sendo divulgadas e angariando uma infinidade de elogios. Pessoalmente, eu estava muito ansioso para pegar neste título e tinha muitas esperanças depositadas no jogo. Os rumores foram crescendo e a dada altura, alguém que testara o jogo falara de um cruzamento feliz entre PUERTO RICO e GOA. Com isto, o jogo foi ganhando uma legião de ansiosos geeks, desejosos de lhe deitar as mãos. Eu era um deles. Finalmente, tive a oportunidade de o fazer e agora cá estou eu para vos falar desta criação vinda da Nova Zelândia, com a chancela da Z-Man Games. Antes de me lançar na apreciação do jogo propriamente dito, quero deixar já uma nota que acho importante para aqueles que ainda não jogaram o jogo e estão cheios de vontade de o fazer. ENDEAVOR é um jogo de densidade média, não é um gamer's game. Quem estiver à espera de um Eurogame denso e pesado vai sentir-se defraudado. Não que o jogo não seja bom, mas pelo facto de ser um jogo muito mais simples e fluido do que aparenta ser. Eu, no meu caso particular, acho o jogo muito bem conseguido, rápido, quase sem downtime e com decisões suficientes para o tornar desafiante e estimulante, mas não é um peso pesado.
Feita esta ressalva, vamos esmiuçar o jogo :) Afinal, o que é ENDEAVOR? Neste jogo, cada jogador representa uma potência europeia que procura desbravar o mundo à procura de novas terras: América do Norte, Caraíbas, América do Sul, África, Índia e Extremo Oriente. Nesta corrida pela descoberta de novos territórios os jogadores adquirem para a sua nação umas fichas designadas de "trade tokens" que lhes permitem desenvolver vários aspectos intrínsecos, como o nível industrial, cultural, financeiro e político. Estes quatro parâmetros são medidos por via de um tabuleiro individual que cada jogador tem e onde vai avançando uns cubinhos, marcando assim a evolução e as características da sua potência. E é este mecanismo a pedra-de-toque que faz mexer o jogo. O nível industrial permite aos jogadores adquirir edifícios cada vez mais poderosos; o nível cultural permite em cada turno ter cada vez mais trabalhadores disponíveis; o nível financeiro permite pagar mais salários e assim libertar trabalhadores e edifícios utilizados em turnos anteriores; finalmente o nível político permite aos jogadores acumularem mais cartas, designadas por "assets". Equilibrar e optimizar estes quatro vectores torna-se o principal dilema dos jogadores, e não há uma só fórmula para ganhar. Cada jogo permite experimentar novas estratégias e é preciso estar sempre de olho naquilo que os adversários estão a fazer. Achar um equilíbrio é muito importante, mas não será decisivo. Cada jogo é uma experiência nova, e em cada nova experiência vamos procurar novas formas de pontuar mais que os outros, pois os caminhos são muitos. Alguns edifícios, quando adquiridos, permitem aos jogadores evoluir nalgumas características; outros oferecem ainda a possibilidade, de quando activados (por via de um trabalhador), oferecer uma acção: Enviar um barco, colonizar uma cidade, atacar um adversário, ou procurar uma "asset card". Alguns edifícios mais evoluídos até permitem a execução de duas acções, mas para lá chegar um jogador terá que ter evoluído a sua nação no nível de indústria. Sempre que se envia um barco para a "shipping track", sempre que se ocupa uma cidade, sempre que se controlam as duas cidades das duas extremidades de uma dada rota comercial, os jogadores ganham os já referidos "trade tokens". Estes trade tokens são um bem valioso e perseguido por todos, a sua maioria (de fundo castanho) representam avanços em uma das quatro linhas de evolução (indústria, Cultura, Finança e Política); Mais escassos, são aqueles de fundo azul, que representam uma acção. São muito cobiçados porque permitem aos jogadores executar uma determinada acção sem ter que recorrer a trabalhadores para activar edifícios. Ou seja, executa-se uma qualquer acção poupando 2 fichinhas, e isso é bem bom!
O jogo tem dois tempos distintos. Um relacionado com mecânica, a sua fluidez, e aí o jogo é brilhante, as acções sucedem-se a um ritmo que não é vulgar encontrar. No início do turno há uma fase quase administrativa: escolhe-se edifício, ajustam-se marcadores e recolhem-se fichas. Depois vem as acções, uma de cada vez, um jogador de cada vez, mas num belíssimo ritmo. No fim do turno passa-se o marcador de primeiro jogador à esquerda et voilá... fazer tudo de novo. Depois temos o tempo da história. Não o tempo DE jogo, mas o tempo DO jogo. E aqui há uma sensação esquisita nos primeiros 3/4 turnos de que pouco fazes, mas de repente as opções são cada vez maiores e os turnos começam a demorar cada vez mais. Sucedem-se em bom ritmo, mas duram mais tempo e sabem também melhor... dão mais pica. Aliás, já ouvi muitos queixarem-se deste "slow start" do jogo. É um facto. Mas isso a mim nem me irrita, nem me parece que estraga o jogo. É mais feitio do que defeito. "Trade tokens" e "asset cards" são formas de ganhar pontos e ganhar influência nos quatro parâmetros do jogo. Juntando-lhe os edifícios, existem mil e um modos de evoluir e jogar. Já deu para perceber que eu gosto mesmo deste jogo. Não o escondo, gosto mesmo muito deste jogo. Acho-o refrescante. Tem suficiente densidade e estratégia para me entusiasmar; é jogável em 60 a 75 minutos e não é repetitivo. Junto a estes ingredientes, uma arte final soberba. Um "must" de 2009! Todas as rosas têm espinhos. Este é o espinho que me irrita em Endeavor. Pode acontecer, na distribuição inicial e aleatória de "trade tokens", aparecer 1 ou 2 daqueles azulinhos logo na Europa e assim permitir que os primeiros jogadores na ordem de turno tenham uma ligeira vantagem no início do jogo, em relação aos restantes. Eu contorno isso com uma "house rule", nenhuma cidade da Europa recebe azulinhos nesse setup inicial. Vou finalizar, voltando ao meu parágrafo inicial. As comparações entre Endeavor e um suposto híbrido de GOA com PUERTO RICO, não me parecem assim tão evidente. Há ali um cheirinho de GOA sim, mas de resto parece-me ser um desenho habilmente simplificado, para nos dar alguma sensação de aventura e civilização. Mistura um mecanismo de "area control" com o de "worker placement" num resultado final que me parece bem bom.

10 comentário(s):

Rôla disse...

Bela critica! Uma pessoa fica logo com vontade de jogar a coisa!
Ainda por cima gosto muito do Goa e o facto de vir da Nova Zelândia , os nossos antipodas, é mais um atractivo...

haroldun disse...

Boa crítica, Costa!
É já hoje que o vou experimentar ... a ver vamos.

BrainStorm disse...

Eu lá está... já não estou com o Rola e no Haroldun.

Eu que eu digo é: Excelente folheto comercial, bem escrito e uma grande promoção ao jogo. Agora daí a ser uma boa critica vai um passo. É a visão do Costa sobre o jogo... já não é a minha.

Não me levem a mal, e não me interpretem mal, o jogo não é mau... mas não é nada demais, na minha opinião. É um jogo equilibrado e que tem algumas hipóteses de reacção por parte dos outros jogadores.

Na "actual" escala... é um jogo MEHHH !!!

Unknown disse...

Já andava com saudades das tuas críticas.
Gosto tb bastante do jogo, mas como disseste esperava algo mais pesado. Mas é bastante dificil teres um jogo pesado que se joga em tão pouco tempo.
Depois de alguns jogos a minha pontuação foi descendo porque acabamos por perceber que a guerra é uma estratégia demasiado forte e que normalmente declara o vencedor. Por mais que os jogadores façam, se não tiverem peças no tabuleiro não conseguem pontuar muito alto.

De qualquer forma é um jogo relativamente leve que se joga em uma hora e isso é sempre bom para se colocar entre dois jogos mais pesados numa noite de jogatina.

welcome back.

haroldun disse...

De facto, a crítica do Costa abriu-me o apetite para este jogo. Isto não quer dizer que o considere, ou venha a considerar, um bom jogo. Acabei de ler as regras e parece-me bastante simples e linear e um pouco atreito a que cada um fique no seu cantinho. Mas é como S.Ludé diz: jogar para acreditar.

@Brainstorm: seja como for, na "tua actual" escala... quase todos os jogos são MEHHH! :P

Dugy disse...

Acho o Endeavor um jogo sólido, middle weight, muito "eurish".
É um jogo de optimização das acções disponíveis, permitindo uma interacção bastante curiosa entre jogadores.
A fazer lembrar o Le Havre, começamos com poucas opções mas depressa ficamos com mais decisões e decisões...
Concordo com a crítica do Costa.
Para mim, um dos jogos de 2009.
Abraço

Unknown disse...

Boa review...
Embora não partilhe todo esse entusiasmo pelo jogo, considero-o um muito bom "euro médio"...
Mas tava à espera de um gamers game à séria e talvez por isso concorde com o Carlos :
Meehhhhh !

Johnnybegood disse...

Já havia expressado a minha opinião sobre o jogo no AoJ, mas não me importo de trascrever na integra aqui: "Meh".
Estou com o Carlos, o artigo ~(bem escrito, diga-se) poderia fazer parte do embrulho do jogo - caso este venha a ser publicado em Português (mérito ao Costa).
Quanto ao jogo em si, não vejo que os conflitos sejam determinantes no desfecho do jogo. Consegui fazer um jogo sem colocar peões na Europa, não ter peões em posições de risco de ataque e insisti em duas regiões e desenvolvimento dos vários parâmetros (a,b,c,d,e respectivamente - eheheh aqueles que estão naquelas escala à Goa) e coleccionei cartas "interessantes) - borrifei-me completamente para as guerrinhas e surpresa -cheguei ao fim à frente!!! Cheira-me que apesar das variáveis, se pode desenvolver uma estratégia baseada em shipping para coleccionar coisas e já está. Não sei se vou testar a teoria, pois não sinto grandes urgências de o voltar a jogar - slightly boring... lack of tension... e outros clichés em lingua estrangeira que se possam aplicar a um jogo meh...

soledade disse...

Eu acho as guerras um aspecto fundamental do jogo. Pelo menos, foi essa a percepção que tive nas vezes que joguei.

Quanto ao jogo em si acho que é um bom jogo. Não acho que traga nada de novo (nada) e resume-se a um coleccionar de coisas. As estratégias têm de passar pelos edifícios porque são eles que dão as acções. Os shippings são bons para chegar aos tokens mas não prestam para os VP's. É muito mais vantajoso chegar ao novo mundo e colonizar do que estar com merdas a perder tempo para se conseguir um token ou outro. Os únicos tokens, realmente, vantajosos, são os de acções extra porque os outros, todos eles, vamos conseguindo, ou de uma maneira ou de outra.

A vantagem de começar por impor alguma força na Europa é imensa. Quem primeiro ocupar as cidades europeias, em princípio, só tem a ganhar. A Europa permite coleccionar algumas muito boas cartas e dá uma muito grande quantidade de ligações para o novo mundo. Conseguindo fazer guerrinhas, e aí está a força delas, consegue-se segurar uns bons 12 - 15 pontos no tabuleiro. Isto é só um intervalo aleatório :)
Eu acho que sempre que joguei, a minha estratégia resultou com o que tinha no tabuleiro.

Resumindo, um bom jogo, nada de novo, nada de especial. Gosto que se jogue rápido, gosto de não ter nada para pensar (é fazer e aviar), mas enquanto jogo acho-o muito, muito normal. Sem defeitos mas sem grandes virtudes.

Costa disse...

Uns gostam outros não. As razões partilham-se e dividem-se. Como em tudo, a multitude de opiniões gera sempre polémicas e consensos. Discordo de algumas opiniões, mas apesar disso (e à boa maneira democrática), defenderei sempre até à morte o direito à livre expressão de ideias e palavras. Tenho pena que nem todos gostem do jogo, porque gostaria de o poder jogar com todos. Mas outros jogos haverá, que poderei jogar com aqueles que não gostam deste.

Eu sei que escrevi um bonito folhetim promocional ao jogo, ou pelo menos alguns acham que o fiz. Mas apesar disso não ganhei nada da Z-man e fi-lo no mesmo espírito democrático com que aceito o que os outros dizem.

Já li, noutras paragens, que é possível que venha a existir uma expansão para este jogo e que o levará para outros rumos. A seguir com interesse :)

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