09/09/2009

Yes We Plan!

Da "razão à imaginação" poderia ser um daqueles títulos de livros sobre o sucesso pessoal do cidadão comum ou, numa espécie de terapia cinzenta, um "como ganhei o meu primeiro milhão", de filosofia barata.
A escolha desta perspectiva sobre como avaliar um jogo ou, ainda mais facilmente, gosto ou não gosto de um jogo, é uma das questões que devemos sempre levantar - um jogo deve ser observado com a razão ou com a imaginação?
Se o lúdico do objecto nos remete para a imaginação, bem como a forma de encarar as temáticas sempre abstractas de cada jogo, a ética do crítico deve balancear muito bem os prós e os contras que a pessoalização e a rotulagem, normalmente, contêm.
Esta, mais uma, divagação etérea, apareceu quando dei por mim a pensar que alguém teria, a priori, escolhido não gostar de um jogo. Chama-se uma espécie de embirração por antecipação. Eu acredito que há pessoas (também eu posso estar incluído) em listas de utilizadores que embirram com alguns jogos mesmo antes de os jogar. Estas embirrações são, mais ou menos, conscientes, uma vez que vêm de estados de alma mais sinistros ou mais caprichosos que todos nós temos. Ela é consciente (a embirração) e daí eu tê-la chamado de escolhida. Esta teoria diz, mais ou menos, o seguinte: há jogadores que, porque estão num dia caprichoso, escolhem não ir gostar de um jogo. Ou escolhem gostar.
No plano emocional é coerente. Estamos debilitados de razão porque estamos caprichosos e embirrentos. No plano racional, e aqui entra a tal ética do jogador, não é admissível. E não é admissível porque interfere na opinião de muitos outros jogadores e potenciais clientes. Veio-me também à memória a expressão de "cliente terrorista". Este não tem dificuldades éticas em afirmar, mesmo que depois de ter embirrado com um jogo, que não gosta, não presta, não funciona e outros nãos associados a adjectivos qualitativos.
Devemos distanciar-nos dos jogos quando estamos com o período? A bem do vendedor, sim. A bem da informação, sim. A bem da crítica contundente e demasiadamente provocadora e simplória, não. Devemos reduzir o mau estar à inconsistência de uma opinião sólida preconceituosa? Não - o que devemos dizer é, eu estou embirrento e caprichoso portanto, não gosto.
No lado B temos o oposto, claro. A mesma moeda e o outro lado são, por vezes, sólidos inimigos. Por capricho embirrento também escolhemos (mais uma vez, "escolhemos" como uma decisão consciente) gostar de um jogo. E gostamos, mesmo que ele valha pouco ou nada ou mesmo que apresente inúmeros e óbvios defeitos a todos os outros. A resposta a porque é que gostamos não aparece assim de mão beijada e racional. Não. Ela, assim como a do não gostamos, aparece como um esgar de dor, uma cólica repentina, uma necessidade incontrolável. Tem de ser resolvida assim, sem grandes racionalizações e sem grande respeito pelo jogo. Ou melhor, pelos outros jogos.
Às vezes - também já assisti - há um aumento localizado de testosterona ética que defende o jogo e não nos deixa massacrá-lo mas, na maior parte das vezes, quando nos dá este período emocional do embirranço, não há tempo nem conjunturas que ajudem a trazer a ética ao topo da pirâmide.
O plano vem por água abaixo quando o pior dos dias de jogo e aquele objecto que já tinha sido escolhido como alvo do embirranço é mesmo bom e nós queremos tocar o lado A. O lado dos nãos em catadupa. Esses dias trazem um sorriso indisfarçável que mostram que a escolha antecipada do plano não pode prosseguir porque "este cara&%$ deste jogo é mesmo &%$# que pariu, é mesmo bom". E nesses dias quem ganha é o jogador e o jogo. E o vendedor. Porque o plano veio por água abaixo. Grande jogo!!!

10 comentário(s):

BrainStorm disse...

Havia tanto para dizer sobre este tema... infelizmente não temos tempo.

O facto de não haver um jogo perfeito faz com tudo o que disseste possa ser verdade e mentira.

A mim, por exemplo irrita-me o facto da adoração a um criador. Tudo o que o gajo faz é automaticamente bom, quando na relaidade isso não acontece. Como não existe "O JOGO", tudo pode ser contrariado.

Mas agarrando os bois pelos cornos: - O Automobile\Wallace.

O jogo não é perfeito... e sim, estou a embirrar. O jogo até pode ser bom, não digo que não... mas é somente bom. Não chega sequer a Bom+.

Agora... o Sr. Wallace é que sabe. Se ele der um peido tens logo 100 gajos que o vão tentar comprar... e eu conheço alguns. Há pois conheço.

soledade disse...

Nada disso. Já tinha chamado ao teu Automobile uma questão de embirranço mas, não é nada disso. Estava a falar do meu Agricola. Eu não sou grande fã (nunca vejo) de filmes maistream. Blockbusters do género Titanic ou Gladiador, livros como o Código Da Vinci ou clubes como o benfica. Com os jogos é parecido. Tinha embirrado com o Agricola ainda antes de o jogar. Mas o Agricola é o JOGO, como tu dizes.

Também concordo com a ideia de endeusar os designers como se tudo deles fosse bom. Só porque vai sair um Wallace tem de ser bom. Não tem. Eu gosto mais de gostar de jogos de autores de quem gosto (confuso). Resumindo, eu gosto de gostar dos jogos do Mac Gerdts ou do Wallace e tu preferes gostar dos jogos do Jason Matthews, presumo. É uma questão inultrapassável. Nós gostamos deles também como pessoas e, portanto, é mais confortável gostarmos dos jogos deles do que não. E fazemos um esforço intencional mesmo que o não admitamos.

Mas aqui, a minha intenção, era só para justificar uma anomalia cerebral que só passa quando os jogos conseguem dar o golpe de asa. Quer seja para cima, quer seja para baixo.

Em relação a jogos que não prestam e não há nada a fazer, temos o Way Out West. Mesmo que eu fosse na predisposição de gostar dele, não era possível porque é mau. Ou outros muito maus ou mesmo bons. Era só disso que eu queria falar.

Mas o Automobile, é para tantos como não é para tantos outros, bem mais que só bom.

BrainStorm disse...

A questão não é o meu Automobile ou o teu Agricola... e muito menos o teu Mac e o meu Jason.
Como te disse do Jason até só acho mesmo muita piada ao TS. Aliás como também te disse eu acho que o jogo é mais Ananda que Jason.

Quanto ao "embicar" com um jogo. Eu estou numa fase de irritação geral. Não há jogo que eu goste. Já nem alguns Card Drivens me atraem. O que fazer? Deixar de jogar? Já estive mais longe... já estive muito mais longe.

Serei o único que vou a Essen só pelo turismo? Para comprar uma camisola do Borussia?

O Automobile é PARA MIM um jogo mediano... e essa é a opinião que me interessa.

Dugy disse...

De facto, é algo que acontece com (demasiada) frequência.
A principal culpa está no tema. Muitas vezes achamos que determinado tema não será nada apelativo abordado num jogo de tabuleiro. Como o caso do Agricola (tratar de uma quinta não é propriamente "harmonioso" para a maioria dos nós). Eu "embirrei" com o BSG até ler as regras e perceber que estava ali algo mais do que um simples jogo de ficção científica.
Ultimamente, sinto na pele esse "repúdio" com os chamados jogos de combóios. Expressões como "Lá vem ele com mais um jogo de comboinhos..." são comuns.
Nada como insistir... os "embirrados" acabam por dobrar!

Abraço, Eduardo

Costa disse...

Alguém um dia, erradamente disse "gostos não se discutem". Pois eles são a coisa mais discutível do mundo e por isso é andamos todos os dias a embirrar uns com os outros, sobre tudo e mais alguma coisa. Mas ainda bem que assim é. Porque se toda a gente gostasse de amarelo, conseguem imaginar o mundo em que viveríamos??

Mas discutindo mais sobre o tema. Há sem dúvida nenhuma afinidades que se criam e que se procuram manter. É uma questão de identidade pessoal, ou melhor, é uma questão de transferência de identidade pessoal. É como nos filmes, existem personagens com que nos identificamos melhor do que outras e isso é um processo mental muito natural e acontece com tudo.

Nos jogos é igual, seja um autor, uma editora ou uma mecânica, há sempre uma entidade que não se consegue medir ou ver, e que nos atrai imediatamente. Por isso às vezes é que nos empenhamos tanto em gostar em torno de um determinado jogo e depois quando não gostamos dele a desilusão é maior.

Eu gosto muito do sr. Wallace, porque o conheci (e é um gajo como nós, bem porreiro), e porque acho os jogos dele estimulantes e originais. O primeiro jogo que gostei dele foi o LA STRADA, ainda hoje é para mim um dos melhores gateway games que conheço. Depois joguei muita coisa e admito que sou fã de AGE OF STEAM, BRASS, AUTOMOBILE. Mas também há jogos que eu não gosta nada, mas mesmo nada, como BYZANTIUM, PRINCES OF RENAISSANCE ou MORDRED.

Eu gosto de jogos económicos e gosto de jogos com worker placement e gosto de negociação. Gosto do Dorra, do Dorn, do Gerdts, do Ornella e do Wallace e esforço-me por gostar dos jogos deles. Faz parte do nosso processo de transferência de identificação pessoal.

Mas também podes falar em embirrar, claro está... faz parte do teu processo de transferência de identificação pessoal :p

Firepigeon disse...

@Costa: a frase correcta é: se todos gostássemos de amarelo quem é que iria perceber as anedotas sobres os chineses electricos!!! Sim, tou a embirrar!!! LOL

E sim todos temos embirrações, nem que sejam de estimação. É uma das coisas que dá cor e sal à vida. Quanto aos autores, também tenho as minhas embirrações, por exemplo o Wallace que faz bostas e grandes jogos em simúltaneo, como são os seus espectaculares Railroad Tycoon e o inultrapassável Runebound!! E sim os outros (grande maioria) dos jogos do rapaz são uma bosta!! Será que é isto embirração?

Rôla disse...

Eu, que ainda não tenho “estaleca” para embirrar, trago à liça outro aspecto, se me permitem.
Um processo de qualidade duma empresa diz que esta se compromete a produzir parafusos com determinadas características. Podem não ser os melhores parafusos do mercado, mas se cumprirem com o prometido, a empresa consegue a certificação de qualidade.
Nos jogos, podemos observar algo semelhante e que até se pode confundir com a simples gestão de expectativas.
Por isso é que, por exemplo, eu aprecio o Schacht, porque entendo que ele cumpre bem aquilo a que se propõe nos seus jogos. Embora nunca opte por jogos dele se puder jogar algo mais interessante.
E, embora pouco conhecedor, acredito que haverá muitos bons jogos na gaveta, travados por jogos pouco interessantes de autores consagrados. E isso é lamentável.
Ah, discussão bem interessante! Boa malha, Paulo!

soledade disse...

Essas comparações, quer as dos comboios como temas que, à partida, não vamos gostar, quer as dos autores com que simpatizamos de forma instintiva, atávica, como se fossem personagens de filmes, e ainda essa belíssima analogia com parafusos segundo uma ISO qualquer, servem mesmo o propósito da discussão. Há autores que fazem segundo uma ISO qualquer e que só sabem fazer assim mas, fazem bem. O Schacht é desses. O Wallace faz muita cagada. Mas a melhor obra do Wallace é, incomparavelmente melhor que a melhor do Schacht - digo eu. Ou seja, quem não arrisca não petisca.

O mesmo se passa com o jogador que se recusa a jogar algo ou a tentar sequer perceber se presta, quando já vai de pedras na mão e decidiu que não ia gostar. Neste caso, podemos estar a falar de comboios, Agricola ou até, numa personagem de filme chamada Knizia, da qual eu não vou gostar, de certeza. E depois calha-me o Tigris e Euphrates ou o Steam Over Holland, no caso dos comboios.

PS

Unknown disse...

Brilhante...

Eu, por exemplo, antes de saber o que tipo de filme é, gosto por antecipação de qualquer projecto do Tarantino ou do Wallace... Na outra face da moeda temos por exemplo o Titanic, por embirração pessoal, nunca vi o filme, filas imensas de pessoas à porta do cinema na segunda semana, e eu, qual culto do indie, do "ser diferente", do anti-mainstream, embirrei e nunca fui ver o filme... O mesmo sucedeu por exemplo com o Keltis... Um Knizia Spiel de Jhares... não gosto...
Birras...
O filme vi-o à pouco tempo e achei-o mau, apesar de não justificar tamanha embirração, o jogo é um sucesso tremendo nas mesas menos habituais e já o comprei...

Como a Mafalda, nunca gostei de sopa, e peço sempre um bitoque no restaurante... mas já experimentei sardinhas, e não digo sempre que não à sopa da mãezinha...
Parece-me que me está nos genes embirrar, a idade trouxe, para além de eternos dias de ressaca a capacidade de mudar (a custo) de opinião, de experimentar para dizer que não gosto, de não gostar mas jogar ...

Sopa ????
Prefiro os Beatles...
Mas também como...

Costa disse...

@Nuno
Tu és de facto um gajo esquisito, mas gosto de ti na mesma... mas que és esquisito... és!

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