15/11/2009

Chamar pelos nomes

"Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens" Livro das Evidências

Palpita-me que um "strogonoff de perú" ou um "coq au vin" são coisas complexas. Também, não admira, têm nomes estrangeiros. Por hábito, isso basta. Não basta para serem boas mas, para serem complexas, costuma chegar. Num dos meus já, algo distantes, reveillons, lembro-me de comer (ou direi melhor, sorver) um "consomé de pombo ao vinho do porto" que mais não era que uma deprimente e aguada canja de franguinho. Mas o nome era pomposo...
Quantas vezes não é melhor aproveitar uma bela omeleta de chouriça ou um enchido básico que seguir atrás dessas modernices de comida reinventada? Quantas vezes não são essas modernices uma fantochada incaracterística de algo básico como peru partido aos bocadinhos afogado em molho de natas? Pois é. Na realidade nua e crua, de um jogo bem cozinhado, ainda que de nome simples, retiramos uma vasta paleta de sabores mundanos e reconhecíveis a que, invariavelmente, gostamos de regressar. Chamemos-lhes nomes pomposos e chiques ou então nomes básicos e feios mas, na verdade, o jogo é que conta. Ou será que o nome também conta?
Todos os nomes têm atrás de si uma conotação marketeira que deve ser sublinhada. Kodak inventou uma palavra legível por todas as línguas da mesma maneira, para que resultasse, de uma penada, numa brilhante campanha de marketing de marca universal. E resultou. Também quando lemos "Age of Empires" num jogo, sabemos que está ali uma propagação sonora daquilo que gostamos de ser - um herói do império. Quando se buscam nomes como Agricola e se pede para ter sucesso, corremos o risco de alguém rir na nossa cara. Então e como é que ser Agricola facilita a minha existência enquanto sonhador/jogador? É mais ou menos como ler num menu de restaurante chique uma tira de "croquete com imperial". E não é que, da última vez que fui a uma cervejaria famosa, foi o que me valeu? O croquete ultrapassou o fillet mignon de cinco estrelas e passou a servir de pretexto para ir mais vezes àquela cervejaria. Coincidência ou talvez não, o nome chamou-me a atenção por ser assim - banal.
O que devemos sublinhar aqui é que os nomes chamam-nos a atenção. Nomes como Liberté ou Sylla. Nomes como Automobile ou Agricola. Nomes como Imperial e Antike. Todos eles, no seu estilo, chamam por nós - ou pelo menos por mim. Porque todos teremos uma tendência para um tipo de imaginário que é testado diariamente. Os botões de alguns jogadores são pressionados por algumas palavras mais fortes como Empire ou Conquest, outros são conquistados com palavras mais articuladas como Endeavour ou Amyitis. Eu vou atrás de um jogo pelo nome, admito. Tammany Hall ou God's Playground. Que maravilha. São nomes que marcam pontos no meu consciente. Equivalem a um "bacalhau à lagareiro" ou uma "feijoada de lebre".
Outros há que me remetem para um universo mais bélico, como o enorme Paths of Glory ou o belíssimo Here I Stand. Que nomes brilhantes têm estes jogos. É impossível não querer saber o que são. Victory Lost, Clash of Monarchs ou Twilight Struggle. Brilhantes!
No plano afectivo chegam-me os Vasco da Gama, o Goa ou o belíssimo Maria! Se se quiser trocar o Maria por outro nome teriam de reinventar todos os nomes. Não é trocável! É único e absoluto. Se Bíblia é livro, Maria é nome.
Nas surpresas dos nomes toscos, vem o desmanchado 1830 (uma data?), o resgatado Thebes (jogador de futebol com pronúncia do norte?) ou o pedante Dominion (dominion de quê?).
Fiquei, recentemente, a saber que não gostava tanto de um jogo por causa do seu nome. Age of Steam. O gajo é pesado e deselegante. Arranca pregos com os dentes, é lógico e racional. A palavra Age designa antiguidade e sapiência, aprendizagem e experiência. Steam é a poluição em massa, a pegada ecológica do tamanho de um elefante. Um colosso inultrapassável. Ligando as duas palavras encontrava sempre um bicho-papão imenso de trato difícil, sujo e matemático, trágico e cruel. E depois vinham os comboios. É preciso gostar de comboios para se ser Age of Steam. Depois de o jogar, a letra era mais encantadora que a música. Não porque o jogo deixasse de ser quadrado e colossal mas porque o jogo era quadrado e colossal. Havia uma desconfiança mútua de estilos - por um lado um gajo deselegante e óbvio demais para que eu dele gostasse, por outro, um teste à minha (in)capacidade de luta pelo avanço da sociedade. Reconheço que o Age of Steam me bateu aos pontos. Sempre o fez. Ganhou-me sempre, umas vezes de abada, outras, com menos estilo. Mas a curiosidade viria como facto desse nome que eu não gostava estar ligado, intimamente, com o jogo que lá estava dentro. É coerente.
Depois veio o mano novo com nome novo. Simplesmente, Steam. Eu gosto do nome Steam, desde que sozinho. É como um pato com laranja mas sem a laranja. Nunca fui grande fã de comida com fruta. Retirar o Age do meu Steam foi como retirar a laranja do meu pato. Ficou mais tenro. A pegada ecológica é grande como tudo, bem sei, mas o prato está melhor decorado, agora. E o que está lá dentro, continua a ser coerente com o nome.
Eu acho que me é mais fácil gostar de um jogo por causa do nome. O nome é fundamental para me interessar em jogá-lo. A resistência em jogar um jogo que se chama "patê de atum" altera-se conforme me apeteça atum ou não. Na verdade, comer atum é algo que eu faço raramente e, portanto, presumo que demore mais tempo em apetecer-me jogar "patê de atum" que a jogar "sandes de presunto". Preferências. Não quer dizer que a "sandes de presunto" seja melhor que o "patê de atum" mas, na verdade, eu vou sempre querer, primeiro, o presunto.

8 comentário(s):

haroldun disse...

Ser de novo Pai exalta-te a inspiração - e logo tú que, por dote de Deus, já és um bom escritor.
Ficar 'inclinado' por um jogo pelo nome é algo que nunca me aconteceu.
No teu caso, gostares de um jogo com o nome 'Maria' é suspeito, mas eu acredito/sei que o jogo deve ser bom ;)
Contudo, e citando-te fora de contexto 'Depois veio o mano novo com nome novo': Miguel. Temos na nossa História acontecimentos que nos permitiriam criar um jogo com este nome. Só que nós só jogamos ... mas gostamos muito de o fazer!

Belíssimo artigo.

p.s. para mim se o jogo tiver um mapa ou uma boa arte na caixa faz-me 'clic'.

Unknown disse...

Porreiro pá !

Ainda no outro dia olhava para o armário dos jogos e reparava nos nomes à procura de um padrão : "... steam, brass, imperial, Liberté ... será que só gosto de jogos com um nome ? ... Die Macher... isto são uma espécie de dois... será...

Nada disso um bom nome é meio caminho andado... nunca poderia venerar um jogo que se chamasse Arkam Horror, Race for the Galaxy ou até mesmo Tigris & Euphrates ... não cola... não fica... não é "catchy" ...

Um pouco como no cinema :
Bride of Chucky - Naaaaa...
The Godfather - yep

vch disse...

És um poeta! Boa malha.

BrainStorm disse...

Mais uma vez... excelente texto Soledade.

@Haroldun: Quanto ao Miguel, não é nada que não esteja pensado, mas a gritante falta de documentação sobre o assunto torna a coisa dificil.

Rôla disse...

Belíssimo texto sobre um assunto sobre o qual já elaborei alguns mudos pensamentos. Confesso que os nomes também me atraem, quase tanto como o imaginário subjacente.
Eu gosto especialmente de nomes menos amplos e mais focados. Por exemplo, Goa situa-me imediatamente no tempo e no espaço (embora admita que não o faça a um americano ou a um francês); Age of Empires é muito abrangente, não conta só uma história, rica o suficiente para nos prender, mas dispersa-se por um espaço e um tempo demasiado latos.

Cacá disse...

Boa matéria... Realmente tem jogos pelo qual só pelo nome já me fazem ir a mesa ou não..

O "Sator Arepo Opera Rotas" foi um que tive curiosidade de jogá-lo apenas pelo nome diferente (depois explicaram-me que se tratava de um palindromo...

O mesmo acontece ao contrário, como já disse em alguns comentários, dificilmente sentarei a mesa de um "Vasco da Gama". hhAHhahah...

Abraços...

Costa disse...

Bom e inspirado artigo, Paulo.

Mas ao contrário de ti, eu tendo a observar os nomes pelo seu potencial cinematográfico. Mais do que harmonias fonéticas e apelos ao imaginário eu visualizo construções de imagens em movimento.

Muito antes de o jogar, já havia imaginado uma história trágica de Amor para "The Last Train to Wensleydale".
"Small World" fez-me relembrar o universo ambíguo e visceral da obra de Mike Leigh.
"Before the Wind" recorda-me o idealismo dogmatico da obra de Kurosawa.
"Dust" será para sempre uma novela de ficção pós-apocalíptica do tipo "Mad Max".
"At the Gates of Loyang" poderia ser o título do mais recente e subversivo filme de Oliver Stone.
"The Downfall of Pompeii" poderia ser mais um filme catástrofe sobre a lendária erupção vulcânica do Vesúvio, à moda de Ridley Scott.
"Container" seria um thriller de acção com terroristas, armas biológicas e Clive Owen no principal papel.
"Big City" poderia ser mais uma inolvidável trágico-comédia sexual e existencialista de Woody Allen com Scarlett Johansson e Mira Sorvino :)

Mas isto sou eu, que sou doido...

Hélio disse...

E há lá nome mais estapafúrdio do que "Ys"?? Como é que se diz correctamente sequer? "Vamos jogar aos Ipslones?"

Mas concordo com o que aqui se disse que o nome e a arte do jogo são meio caminho andado para criarmos mentalmente uma magia em redor do jogo. Parabéns pelo artigo, muito bom!

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