Há uma espécie de princípio básico que nos norteia quando e sempre que acabamos de jogar um jogo de tabuleiro: gostei ou não gostei? Por vezes ficamos com uma sensação ambígua e duvidamos da nossa opinião. Normalmente, este, não é um bom sinal. Ficamos atordoados com o sentimento ambivalente do sim, gostei ou não, não gostei.
Eu detesto essa sensação. Já não bastava a moda dos metro-sexuais e agora também temos de levar com jogos ambivalentes sem definição assertiva do género, sim sou homem, cuspo no chão e como chícharos. Não. Ao invés disso ouvimos qualquer coisa do tipo, sim sou homem, tenho uma máquina de barbear com 5 lâminas e uso um hidratante que comprei, depois de ver um programa na SIC Mulher. Ajudem-me aqui mas, as coisas têm de fazer sentido, verdade?! É que as palavras, homem, hidratante e SIC Mulher, juntas, não fazem sentido. Deixam um tipo baralhado.
Leonardo é um desses casos. Ou, pelo menos, foi um desses casos. Joguei-o da primeira vez e fiquei meio desconfiado da minha ideia em relação ao jogo. Conclusão: tenho de repetir o jogo antes de conseguir formular uma opinião mais objectiva em relação a ele. Alguns jogos, jogamo-los, e eles mostram-se imediatamente. Ou porque são, realmente bons, ou porque são, realmente maus. Este Leonardo não é desses e então, ficando com a sensação de que havia de o repetir, repeti. E não é que não desapareceu a minha dúvida?! Que diabo de jogo é este que é tão esquisito, de uma editora que não existia, autores desconhecidos, país estranho à criação de jogos, que eu agora acabei de jogar?!
Maestro Leonardo é um area control game relativamente simples de se jogar. Tem 9 turnos mas dois deles não se fazem completamente. Tem um setup inicial que varia de jogador para jogador. Ou seja, o jogador #1 começa com um determinado setup e, os outros subsequentes, começam todos com coisas diferentes uns dos outros. Esquisito. Ou seja, começam aqui as confusões. Se por um lado é um jogo simples, por outro começa logo com esquisitices e complicações desnecessárias. É um bocado como uma mulher linda, na televisão, depilação feita, decote bonito e, de repente, ouve-la, e ela tem uma voz cavernosa tipo Nick Cave.
Depois vem o tema. O tema é muitíssimo interessante. Repesca um pouco daquilo que vemos em Princes of Florence e obriga-nos, também, a ser criadores de coisas na Itália do quatrociento. Mas, se em Princes of Florence temos um jogo quase masturbatório, sem interacção, já em Leonardo, a interacção, como em qualquer jogo de area majority, é rainha e senhora.
Para além disso, o tipo de trabalhos que se podem fazer, não estão escondidos, como em Princes of Florence. Eles ficam à mostra, num display, disponíveis para todos os jogadores os poderem fazer. Aliás, os jogadores só podem completar trabalhos que já foram apresentados no display, ou seja, tornados públicos pelo jogo. Ninguém pode fazer invenções que não tenham ainda saído. Aqui, o jogo conta com um plano estratégico e de antecipação importante, porque aquilo que cada adversário está a fazer, apesar de ser oculto é, minimamente, conhecido.
Além de interessante, o tema está relativamente bem aplicado na mecânica. Temos académicos que vão para os laboratórios trabalhar, mais ou menos semanas, dependendo da complexidade das invenções, essas invenções precisam de um conjunto de materiais, o trabalho do mestre é mais eficaz que o trabalho de um simples aprendiz, enfim, um conjunto de boas ideias. Mas depois o jogo torna-se, de uma forma intrínseca que eu não consigo explicar, estranho. Ou então o problema é meu!
É que tudo parece correr lindamente até ao quinto sexto turno, mais ou menos, altura em que o jogo começa a arrastar-se para um final, na minha opinião, algo penoso.
Talvez falte um sorriso de Mona Lisa. Ou talvez o problema não seja esse. Talvez falte a influência da Lucrézia Bórgia para atormentar os mais criativos. Talvez falte concorrência ao maestro Leonardo. Sei lá, um tipo que queira fazer da capela Sistina uma obra-prima, ou um outro qualquer que queira inventar uma coisa diferente do helicóptero.
Não sei, mas lá que é esquisito, é.
Se calhar tenho de o voltar a jogar.
Material: 2.5/3 Interacção: 2.5/3 Mecânica: 2/3 Tema: 3/3 Estratégia: 2.5/3 Tempo/Diversão: 2/4 Regras: 1/1
Clasificação: 15.5/20
Paulo Soledade


6 comentário(s):
idem
O jogo deixa uma sensação esquisita. Ficamos sem a certeza de termos gostado realmente do jogo. E isso só pode significar que o jogo, se calhar não é assim tão bom. Mas como as espectativas estavam altas, e como queremos à força que o jogo seja bom, entramos em conflito e prolongamos até mais não uma decisão.
Começo a achar, que MAESTRO LEONARDO, é bem capaz de ser um flop.
O jogo chega a ser perfeito por volta do minuto 34 mas depois vem aquele final à Benfica... e pronto ta tudo estragado... e aquele set up inicial é delicioso... ui... mas esquecendo a formação inicial e os belos dos dois últimos turnos até gosto bastante de jogar aquilo...
ps-review com a abordagem certa... inventaste um estilo: as Reviews Invertidas...
Adorei ler a critica.
Está lá tudo escrito... mas no fundo, lá bem no fundo, bem espremido, não dizes nada. O que, bem vistas as coisas, é um pouco como o jogo.
O jogo tem tudo para ser um bom jogo, mas, o pessoal tá ali 2 horas a queimar células cerebrais, e no fim... fica uma sensação estranha.
Eu não gosto. O setup inicial é uma aberração. Digam-me o que disserem, aquilo do 4º jogador ter mais 10 de dinheiro que todos os outros, quando 10 de dinheiro representa mais 400% que todos os outros... encaganita-me... Tem menos trabalhadores, ya... com 4 de dinheiro fica com o mesmo número de trabalhadores e continua a ter mais 200% do dinheiro.
Depois vêm aqueles 2 últimos turnos.. Porquê ?!?!?
Naaaa, até posso jogar mais uma ou outra vez, mas... tenho a ideia que o jogo é mesmo para esquecer.
Tinha grandes esperanças neste jogo. Depois de ler por alto as regras pensei que era capaz de funcionar.
Mas depois de Essen fiquei com a sensação de que algo correu mal. Foi um silêncio muito estranho após todo o frenesim pré Essen. Bem, já se percebeu o que aconteceu. Toda a gente ficou como o Soledade, com pensamentos dubios em relação ao jogo.
A minha regra nestes casos é sempre a mesma, se eu não acabar a primeira sessão dum jogo a dizer que o jogo é bom, é porque não é bom. Não vael a pena andar á procura de coisas que não existem. Acontreceu-me isso com o St Pettersburgo, O Tempus, Bang e Runebound.
Na verdade não há, no jogo, tirando o tal setup que pode ter mais leituras, nada que possamos apontar como estando, realmente, mal.
Mas aquilo que está bem, não resulta. Eu próprio não sabia como escrever a crítica. Acho que, só mesmo, não dizendo nada. Que é o que o jogo transmite.
Em relação, quer ao Tempus, quer ao Saint Petersburg, acho que são, ainda assim, jogos melhores. Talvez sejam mais flop que aquilo que se esperava mas, comparando com este, são muito menos pretensiosos e, talvez por isso, resultem melhor.
tou a ressacar...
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